A passagem dos anos pelas lentes do cinema

Alguns ótimos filmes sobre as mudanças ao longo da vida usam o mesmo elenco ou o mesmo personagem principal anos ou décadas depois da primeira filmagem.

Nesse “quase gênero” de filme (normalmente drama) tenho duas dicas para maratonas de fim de semana ou de qualquer outro dia de ficar em casa curtindo o frio, como hoje:

  • o primeiro é a vida de Antoine Doinel (personagem mais famoso do diretor François Truffaut) da adolescência até os trinta e muitos anos.
  • o segundo mostra a vida de Xavier Rousseau em 3 décadas e cidades distintas – em Barcelona, Paris e Nova York, na visão do diretor Cédric Klapish.

Nas duas sequências os primeiros filmes são incríveis, senão não teriam se tornado sequências, claro, mas as continuações também são ótimas!

Antoine Doinel

O personagem Antoine Doinel, alter ego do diretor Truffaut, nos cinco filmes da saga:

  • Os Incompreendidos (1959) é um dos melhores filmes que eu já assisti. Emocionante a atuação de Jean Pierre Léaud, como Antoine Doinel, ainda adolescente. O personagem briga contra o autoritarismo da escola e a incompreensão dentro de casa e, por sua rebeldia, sofre duras consequências que influenciam o resto de sua vida.
  • Antoine e Collete (1962) é mais cômico do que trágico. Narra o primeiro amor (platônico) de Antoine Doinel, aos 20 anos, por uma amiga. Ele é “adotado” pela família da moça e tratado como um irmão pela linda Collete.
  • Beijos Proibidos (1968) é uma comédia romântica que acompanha as dificuldades do personagem em arrumar um emprego e em se relacionar com a namorada Christine. Mais uma vez ele vive uma relação filial com os pais da namorada.
  • Em Domicílio Conjugal (1970), Antoine está casado com Christine e se torna pai, mas, apesar de finalmente conseguir a estabilidade profissional, permanece perdido na formação da nova família.
  • O Amor em Fuga (1979) revela a vida de Antoine depois de se divorciar de Christine, aos 35 anos. Ele reflete sobre as pessoas e os acontecimentos do seu passado e se apaixona de novo.

Xavier

Os três filmes sobre a vida de Xavier aos 20, aos 30 e aos 40 anos são protagonizados pelo ator Romain Duris, que é o melhor do filme “Como Arrasar um Coração“, comentado no post da semana passada. A namorada dele é vivida pela atriz Audrey Tautou (a fofa Amelie Poulain!)

  • Albergue Espanhol (2002) é o filme que mostra o último ano de Xavier na faculdade, quando decide deixar Paris para fazer um intercâmbio em Barcelona. Lá, o rapaz de 20 e poucos anos vive em um albergue com outros jovens de diversas nacionalidades. Ele se identifica com as descobertas e as indecisões dos novos amigos e experimenta uma mudança radical na sua vida em vários aspectos. Volta para Paris mais seguro das suas convicções e mais sensível ao que importa na vida.
  • Em Bonecas Russas (2007), Xavier está com 30 anos e apesar de ter realizado algumas conquistas profissionais ainda não está satisfeito com a vida e continua imaturo nos relacionamentos amorosos, como era aos 20 anos. Sua melhor amiga (que conheceu no albergue) o ajuda a encontrar o amor.
  • O Enigma Chinês (2013), aos 40 anos, Xavier vive uma crise no casamento (com uma das personagens que conheceu no albergue) e se separa. Ela vai morar em Nova York e leva os filhos deles. Para estar próximo das crianças ele também se muda. Assim como na saga de Antoine Doinel, as mulheres da vida de Xavier Rousseau estão presentes nesse filme como as peças de um quebra-cabeças que formam a personalidade confusa, insatisfeita e cômica do personagem.

Espero que vocês tenham gostado das dicas!

Bom restinho de domingo!

Frio no Rio

 

 

Longe da Árvore: Surdos

Voltei ao livro Longe da Árvore, de Andrew Solomon, para continuar sua resenha por capítulos.

Este capítulo sobre surdos descreve as relações familiares e a forma como a sociedade – majoritariamente ouvinte – percebe os surdos.

alunos abelhas

Algumas agressões da sociedade aos surdos ao longo da história:

  • No século XIX, Alexandre Graham Bell, que era filho ouvinte de mãe surda e casado com uma mulher surda depreciava os sinais da língua delas. Ele fundou uma associação “educativa” que condenava o casamento entre surdos e o contato entre alunos surdos! Bell defendia a esterilização de todos os surdos! Thomas Edison também aderiu ao movimento para extinguir a língua de sinais.
  • O movimento contra a língua de sinais culminou, em 1880, no Congresso de Milão – primeiro encontro internacional de educadores de surdos – que decretou a proibição da língua de sinais, chamada pejorativamente de “manualismo”.
  • Antes do Congresso de Milão havia escolas residenciais para surdos aprenderem a língua de sinais.
  • Na época da primeira Guerra Mundial 80% da crianças surdas eram educadas sem a língua de sinais e tomavam reguada na mão se tentassem se comunicar dessa forma.
  • Os surdos eram considerados idiotas, por isso, na língua inglesa, a palavra dumb (mudo) se refere a uma pessoa pateta.

O reconhecimento da língua de sinais no século XX e no século XXI:

  • Quando o linguista William Stokoe publicou “A estrutura da língua gestual”, em 1960 (!) os estudiosos reconheceram sua gramática própria, complexa e profunda, com regras e sistemas lógicos. Até então, a língua de sinais era considerada um sistema grosseiro de comunicação gestual.
  • A língua de sinais brasileira (Libras) só foi reconhecida por lei como uma língua em 2002!!!

abelha dançando

 

Sobre aquisição da linguagem:

“As crianças surdas adquirem a língua de sinais da mesma maneira como as crianças que ouvem adquirem a língua falada; a maioria pode aprender a linguagem sonora escrita como uma segunda língua. Para muitas, no entanto, a fala é uma ginástica mística da língua e da garganta, enquanto a leitura labial é um jogo de adivinhação.”

“Se passarem da idade-chave para a aquisição da linguagem sem adquirir alguma língua por completo, elas não poderão desenvolver habilidades cognitivas plenas e sofrerão permanentemente uma forma evitável de retardo mental.

“Não podemos imaginar pensamento sem linguagem, tanto quanto não podemos imaginar linguagem sem pensamento. A incapacidade de se comunicar pode resultar em psicose e disfunção.”

FILHOS SURDOS DE PAIS SURDOS:

“Filhos surdos de pais surdos com frequência têm um grau maior de realização do que filhos surdos de pais ouvintes.”

Juntando a afirmação acima com outras informações do livro:

“Em média, a criança de dois anos que ouve tem um vocabulário de trezentas palavras; a criança surda de pais ouvintes da mesma idade tem um vocabulário de trinta palavras.”

“A cultura surda proporciona um caminho para as pessoas surdas se reinventarem, não tanto se adaptando ao presente, mas herdando o passado. Ela possibilita que os surdos pensem em si mesmos não como pessoas com audição inacabada, mas como seres culturais e linguísticos em um mundo coletivo com os outros.”

Tudo leva a crer que é mais fácil ser surdo e ter pais surdos do que ter pais ouvintes porque o contato com a língua de sinais e com a cultura surda desde cedo são muito importantes para o desenvolvimento da criança surda.

abelhas conversando

COMO FICAM AS FAMÍLIAS DE PAIS OUVINTES E FILHOS SURDOS?

A língua de sinais e a cultura surda distanciariam os pais ouvintes dos filhos surdos?

Talvez sim. Por essa razão, muitos pais ouvintes procuram outros caminhos para os filhos, como o implante coclear.

O implante coclear não permite que se ouça, mas possibilita algo que se assemelha à audição. Dá à pessoa um processo que é (às vezes) rico em informações e (em geral) desprovido de música. Implantado desde cedo, pode proporcionar uma base para o desenvolvimento da linguagem oral.”

Além de possíveis reações adversas e complicações na cirurgia do implante coclear, ele proporciona apenas versões dos sons que os ouvintes escutam.

O autor alerta outro risco para aqueles que optam pelo implante coclear dos filhos:

“… algumas crianças com implantes não expostas à língua de sinais porque se espera que desenvolvam a fala, podem cair na assustadora categoria dos desnecessariamente prejudicados, que têm uma língua principal escassa.”

“Embora possa ser difícil para as pessoas surdas aprender a falar, também é difícil para os pais aprender a língua de sinais – não porque sejam preguiçosos ou presunçosos, mas porque seus cérebros estão organizados em torno da expressão verbal … Um dos motivos que levam os pais a fazer implantes nos filhos é para que possam se comunicar com eles. Talvez seja sábio fazê-lo: a intimidade entre pais e filhos é um dos pilares da saúde mental para ambas as partes.”

flores

Por muitas histórias tristes, traumáticas e outras felizes e cheias de superação, o autor trata das dificuldades de escolher o caminho que ajudará os filhos e os pais a serem mais próximos e a se sentirem integrados como família e como indivíduos pertencentes a uma cultura ouvinte e/ou surda.

Espero que vocês tenham gostado das reflexões deste capítulo.

As lindas ilustrações deste post foram tiradas de um trabalho da professora de aquarela do Jardim Botânico do Rio de Janeiro Maria Angélica de Sá Earp.

Até o próximo!!!

 

 

 

 

Só filmes e blogs essa semana

Semana comprida essa que termina hoje.

Na vida presencial meu pai fez aniversário e o Vico pegou uma virose.

No tempo livre acompanhei os escândalos políticos e fiquei assistindo as mesmas notícias como quem assiste reprises de temporadas de um seriado.

Uma menina de 12 anos da escola do Ludo e do Vico desapareceu depois de ir ao mercado sozinha, a poucos metros do local onde sua família comia uma pizza. Deu vontade de sair do Rio e morar numa cidade bem pequena e segura. O Ludo protestou só de me ouvir comentar essa ideia. Fico feliz dele gostar da cidade, da escola e da vida que temos aqui. Eu também gosto. A menina apareceu quase um dia depois, sã e salva graças a Deus. Pode ser sido apenas um ato bastante ousado de rebeldia. Espero que sim.

Cristo

Consegui acompanhar os blogs – hábito que é um prazer e um vício de uns tempos pra cá.  Tenho até medo de gostar de outros blogs e ficar cheia de posts atrasados para ler, além dos livros que estão se empilhando na minha mesa de cabeceira.

Assistimos hoje o filme “Rei Arthur e a lenda da espada”, do diretor Guy Ritchie, do Clube da Luta, entre outros. É divertido. Muita ação, efeitos especiais e algumas piadas. Os meninos gostaram. A resenha do blog Filmose está ótima para quem tiver curiosidade em saber sobre o filme bem mais detalhadamente.

Pegamos na locadora “Como arrasar um coração”, comédia francesa de 2011, que vimos no cinema. É uma recomendação para quem gosta de filmes leves e românticos na medida certa.

Como arrasar um coração

A trama é simples, mas tem um ritmo ágil e momentos surpreendentes. O pai da moça contrata uma agência especializada em terminar relacionamentos para que ela não se case. O problema é que a relação dela com o noivo é perfeita e ela não cai nas armadilhas da agência e nem se interessa pelo sujeito contratado para seduzi-la. As locações são lindas, acho a atriz – Vanessa Paradis- muito charmosa e o galã da agência, contratado para separar o casal, uma figuraça. Gosto de tramas que fazem pensar e filmes cult, mas esse aqui, apesar de não pertencer a estas categorias, é uma delícia.

Bom domingo!!!

 

Versatile Blogger Award

the versatile blogger award

Este post é sobre um concurso que funciona entre os blogs e do qual eu tomei conhecimento hoje.

Como começa ou como acaba não sei, só sei que foi assim:

O Eduardo Jauch do Blog do Jauch indicou 10 blogs que ele gosta, entre eles o blog do Alan Martins: Anatomia da Palavra

O Alan indicou 10 blogs que ele gosta, entre eles o Ludo e Vico!!!

Seguindo os passos que o concurso recomenda:

  1. Agradeci o Alan Martins e compartilhei aqui o link do blog dele: Anatomia da Palavra.
  2. Agora eu tenho que indicar 10 blogs e contar 7 fatos sobre a minha vida que não estão no blog.

Não posso indicar quem me indicou. Uma pena porque o blog do Alan Martins é bem legal. Tem poesia, literatura, cinema, reflexões e ele é uma simpatia.

O Eduardo Jauch também tem um blog ótimo que eu descobri hoje e comecei a seguir também, sobre literatura (contos, poesias),desenhos, aikido e outras coisas da vida (dele).

Os blogs que eu já sigo há mais tempo, gosto, recomendo e, por isso, indico aqui para o Versatile Blogger Award são:

Documento de Viagem para conhecer roteiros completos com dicas de passeios, hospedagens, restaurantes, compras, vacinas, o que levar na mala etc. em viagens pelo Brasil e pelo mundo afora. Quem escreve é o casal Paula e Marcelo.

De frente para o mar para ler sobre assuntos variados escritos com capricho e afeto nas escolhas dos textos e das imagens. Quem escreve é a Claudia.

Rosie Zanutto para quem gosta de artesanato feito de mil e uma formas e materiais diferentes, para vestir, decorar, brincar, ensinar etc. Quem escreve é a própria Rosie.

A caixa de imaginação para quem se interessa por psicopedagogia, literatura infantil, contoterapia, viagens, concursos literários etc. Escrito pela talentosa Claudine Bernardes.

Ju Orosco para ler textos excelentes sobre literatura, cinema, psicanálise, história e aprender muito com essa moça culta e muito simpática chamada Juliane Orosco.

Librorum para o pessoal de Letras ou interessados como eu em conhecer as ideias, visões e histórias de um casal – Helô Lopes e M. V. Delgado – que foi incluindo no blog amigas – Manuela, Biaka e Fernanda – de Petrópolis (RJ) que também adoram ler, escrever, refletir sobre esses prazeres e indicar autores e caminhos para liberar o escritor dentro de cada um de nós.

Qualquer viagem eu vou para saber ótimas dicas sobre viagens e passeios em família, com crianças e adolescentes, no Brasil e no exterior. Escrito pela Ediléia.

Mara Romaro para suspirar com as poesias muito inspiradas da autora Mara Romaro.

Decantando olhares para ler os contos criativos do Marcos Silva.

Rasgando o ventre para ler boas reflexões sobre vários assuntos e situações vividas pela autora, que sempre adorou brincar com as palavras e que, pelo blog, se abre para o mundo. Escrito por Maria Olga.

Esses blogs são alguns dos que eu mais gosto de ler. Infelizmente, não pude colocar todos os que eu gosto aqui porque a lista é limitada a 10 blogs.

7 fatos sobre mim:

  • Não sei andar de bicicleta
  • Jogo tênis uma vez por semana com o Vico
  • O Ludo me ensinou a arrumar as roupas no armário e na mala
  • Sou chocólatra
  • Quando era criança queria ser mãe e bailarina
  • Olho o Cristo Redentor da minha janela
  • Meu marido é meu melhor amigo

Beijos!!!

 

 

Brincadeira Profana e Feliz

crianças brincando

Atualmente estou lendo vários livros ao mesmo tempo. Em um livro sobre Cinema e Educação, por acaso, encontrei algumas reflexões interessantes sobre brinquedo que achei que valeria a pena compartilhar aqui no blog.

Brinquedo – Objeto de Culto

“Muitos dos brinquedos mais antigos, tais como bola, arco, roda de pena, pipa entre outros, foram impostos às crianças como objetos de culto, os quais só mais tarde e graças à força da imaginação infantil transformaram-se em brinquedos”.

“Foram as crianças in-fantes (sem fala) ainda, que, sacudindo objetos de culto, inventaram o chocalho, por exemplo”.

A brincadeira , portanto, profanou objetos que seriam sagrados.

Pipa

Brinquedo – Objeto de Consumo

“Através do sofisticado bombardeio imagético – eficazmente orientado por especialistas -, é que a criança aprende que necessita consumir todos esses brinquedos- que hoje ocupam o lugar do brincar”.

Profanar o sagrado do consumo equivale a brincar e brincar significa sempre libertação“.

Ocorre que “brincar simplesmente não garante a profanação do sagrado da cultura do consumo”.

Além de permitirmos o espaço da brincadeira, precisamos rever o que aprendemos desde pequenos, assistindo a televisão, para que as crianças não repitam o mesmo padrão: que para ser feliz é preciso ser famoso e ter sucesso.

casa de bonecas

O livro de onde tirei as citações foi Cinema e educação: Reflexões e experiências com professores e estudantes de educação básica, dentro e fora da escola, de Adriana Fresquet – professora da Faculdade de Educação da UFRJ e coordenadora da Rede Latino- Americana de Educação, Cinema e Audiovisual (Rede Kino).

Os desenhos são do meu almanaque favorito desde 1987: The Second Kids World Almanac of Records and Facts, de Margo McLoone-Basta e Alice Siegel

 

Longe da árvore

chão do beijo de klimt

Andrew Solomon é um escritor norte-americano que trata de forma profunda e natural uma diversidade de temas nos seus livros.

Além de escritor, ele é jornalista, ativista do movimento LGBT, do tratamento de doenças mentais e das artes, como descreve na sua página.

Os dois livros que eu tenho dele são “O demônio do meio dia” e “Longe da árvore: pais, filhos e a busca da identidade“.

O primeiro é uma enciclopédia sobre a depressão (os sintomas, a aceitação social, os medicamentos, as terapias para o corpo, a mente e a alma, juntas e separadas, e toda a saga do escritor para conviver com a doença). Depois desse livro, os outros que tratam do tema ficaram parecendo cartilha do posto de saúde.

Comprei “O demônio do meio dia” porque queria entender e tentar ajudar pessoas amadas que viviam e vivem um pesadelo quando o tal demônio ataca. Está emprestado.

longe da árvore

O segundo livro, “Longe da Árvore”, também traz as vivências do autor, disléxico e homossexual e de outras minorias tratadas em casa e na rua como deficientes, gênios ou desajustados.

Solomon entrevistou mais de 300 famílias ao longo de uma década  e escreveu sobre anões, surdos, autistas, prodígios, esquizofrênicos, transgêneros entre outros seres humanos diferentes do padrão comum à maioria da sociedade, partindo da forma como suas famílias os receberam no mundo e o impacto dessa relação nos filhos e nos pais.

Uma frase do autor, parodiando Tolstói, que está na orelha do livro resume sua essência:

“As famílias infelizes que rejeitam seus filhos diferentes têm muito em comum, ao passo que as felizes que se esforçam para aceita-los são felizes de várias maneiras”.

São 820 páginas, além das notas de referências. Dá pra ler os capítulos em sequência ou escolhendo sua própria ordem de interesse.

No primeiro capítulo, ele classifica as identidades entre pais e filhos em dois grupos:

  • Identidades verticais: cor da pele, linguagem, religião entre outros traços transmitidos pelas cadeias de DNA ou pelas normas culturais compartilhadas
  • Identidades horizontais: genes recessivos, mutações aleatórias, valores ou preferências que a criança não compartilha com seus genitores.

Segundo o autor:

“As identidades verticais em geral são respeitadas como identidade; as horizontais são muitas vezes tratadas como defeitos”.

meio do beijo de Klimt

Selecionei alguns trechos do primeiro capítulo sobre o conceito de deficiência, saúde e identidade horizontal:

“Ser gay era uma deficiência no século XIX de um modo que não é agora; hoje, é uma deficiência em alguns lugares de uma forma que não é em outros; e, para mim, era uma deficiência na juventude e não o é mais hoje”.

A anorexia, que ele cita como exemplo de doença mental que tem a maior taxa de mortalidade entre esse tipo de doenças, não pode ser estilo de vida defendido pela via da identidade.

“Está claro que identidade é um conceito finito. O que não está claro é a localização dos seus limites“.

O autor narra que sua mãe o ajudou a superar várias dificuldades trazidas pela dislexia, tanto que ele se tornou um jornalista e escritor. Nesse sentido ele traça a linha subjetiva entre doença e identidade na sua vida.

“Em minha própria vida, a dislexia é uma doença, enquanto ser gay é uma identidade. Pergunto-me, porém, se teria sido o contrário caso meus pais não tivessem conseguido me ajudar a compensar a dislexia, mas tivessem alcançado o objetivo de alterar minha sexualidade”.

Sobre o que os filhos escutam quando os pais rezam por uma cura, quando gostariam que aceitassem suas identidades:

“Jim Sinclair, uma pessoa autista intersexual, escreveu: Quando os pais dizem “Eu gostaria que meu filho não tivesse autismo”o que eles realmente estão dizendo é “Gostaríamos que o filho autista que temos não existisse e tivéssemos em vez dele um filho diferente (não autista)”. Leiam isso de novo. Isso é o que ouvimos quando vocês lamentam por nossa existência. Quando vocês rezam por uma cura.”

o beijo de klimt

Sobre o amor e o sofrimento dos pais:

“Os homens e mulheres que acreditam que ter um filho deficiente lhes deu um conhecimento ou esperança que não teriam de outro modo encontram valor em suas vidas, e aqueles pais que não veem essas possibilidades muitas vezes não o encontram.

Aqueles que acreditam que seu sofrimento foi valioso amam com mais facilidade do que aqueles que não veem sentido em sua dor.

Sofrimento não implica necessariamente amor, mas amor implica sofrimento, e o que muda com esses filhos e suas situações extraordinárias é a forma do sofrimento – e, em consequência, a forma do amor, forçado a assumir uma feição mais difícil.”

Esses trechos estão todos no primeiro capítulo.

O livro é tão amplo e profundo que eu precisaria de vários posts para tratar de cada capítulo separadamente e essa talvez seja uma boa ideia.

Assim sendo, gostaria que esse post fosse apenas um aperitivo para os próximos capítulos de “Longe da Árvore”.

Até o próximo!

Dois filmes de mistério

Estava com vontade de assistir filmes de suspense e escolhi dois filmes desse gênero para o fim de semana.

A decada prodigiosa

O primeiro – Dez dias Fantásticos – assisti ontem com meu marido.

A expectativa era alta.

Diretor:

Claude Chabrol (Mulheres Diabólicas, 1995; Ciúme: O inferno do amor possessivo; Madame Bovari, 1991, entre outros)

Elenco:

Orson Welles (O Processo; A Marca da Maldade; Cidadão Kane etc)

Anthony Perkins (Psicose; Assassinato no Oriente Express; O Processo – esse filme é agoniante e vale à pena mesmo!)

Michel Piccoli (A Bela da Tarde; O discreto charme da burguesia; Habemus Papam…)

Trama:

O personagem de Anthony Perkins- Charles – é filho adotivo do magnata interpretado por Orson Welles. Este era casado com uma moça muito mais jovem do que ele, que também havia sido adotada pelo magnata quando era criança.

Michel Piccoli é um professor de filosofia, amigo de Charles, que era a única esperança do rapaz de se safar de uma situação complexa criada por ele e por sua jovem e bela madrasta.

O detalhe mais interessante do filme é que o magnata obrigava todos os que viviam com ele a se vestirem e se comportarem como se estivessem em 1925, em plenos anos 1970.

O pior do filme: A trama. Quando cada uma das reviravoltas está para acontecer, o espectador que já assistiu alguns filmes na vida não se surpreende. Sem a surpresa esse filme, que era pra ser suspense, perde o encanto.

O melhor do filme: A expectativa antes de assisti-lo.

Assassinato em Gosford Park

O segundo filme – Assassinato em Gosford Park – do diretor Robert Altman, assisti hoje, depois do almoço, com a família toda.

O Vico saiu da sala nos primeiros 15 minutos.

Meu marido dormiu logo depois.

Ludo aguentou até a metade do filme e me confessou que esperava que o assassinato já tivesse acontecido e que não queria mais esperar.

Eu, meu pai e minha mãe gostamos muito do filme!

Conclusão: Não aconselho assistir com crianças, nem adolescentes, nem depois de exagerar no almoço.

O filme é lento, mas justificadamente. Depois das apresentações iniciais, que situam a historia em 1932, numa mansão no interior da Inglaterra, a trama começa a aparecer.

As relações humanas, os costumes, os diálogos, os cenários, tudo é construido com muito capricho e seduz quem atravessa a primeira parte do filme pacientemente.

A demora para acontecer o assassinato é necessária para conhecermos as personalidades e os hábitos dos anfitriões, dos convidados e dos empregados, que são a alma do filme.

O pior do filme: O começo, que traz muitas informações sobre a logística da casa e sobre os protocolos que existiam no mundo dos patrões e dos empregados, mas ao longo do filme dá pra entender e aceitar essa introdução longa e meio tumultuada.

O melhor do filme: Maggie Smith. A atriz interpreta uma condessa de língua afiada, que faz os comentários mais engraçados do filme sobre os outros personagens e sobre sua estadia na mansão.

O mistério não é o melhor de “Assassinato em Gosford Park”, mas, mesmo assim, é um ótimo filme de suspense. Recomendo.

Bom domingo!