Elixir Mágico

lobo uivando

Essa semana o post relata uma experiência que parecia até engraçada na hora, pois foi inusitada para mim e para o meu marido, mas passado um tempinho se mostrou amarga pela constatação da má fé que rege as relações entre as instituições e as pessoas e entre as próprias pessoas que se enxergam como mercadorias.

Pra suavizar esse tom distópico lembrei do clipe de Say Say Say, com o Michael Jackson, o Paul e a Linda McCartney, em que eles tentavam vender um “elixir mágico” e saíam enganando um monte de gente e fugindo de uma cidade para outra.

Os Trouxas

Sábado passado, eu e meu marido fomos a um mercado enorme aqui em Petrópolis, desses que vendem eletrodomésticos, comida, roupas, etc.. Já no estacionamento ouvimos um homem anunciar que aquela filial da rede de supermercados havia sido escolhida para uma promoção e as pessoas dentro do mercado tinham que se aproximar do locutor.

Ele estava em cima de uma escada prestes a desligar o microfone para contar o que era a tal promoção.

Primeiro, pediu uma salva de palmas para todos os clientes do mercado, por serem os que menos “degustavam”(=roubavam comida) no estado do Rio! O pior é que as pessoas aplaudiram! Depois fez todos o seguirem para onde estavam televisores que seriam vendidos por um preço bem especial.

Nós paramos para assistir à agonia das pessoas para pegar as senhas, que eram limitadas, para conseguir os aparelhos de TV que estavam fora do catálogo, ou seja, encalhados na loja e que nunca teriam conserto. Teve gente rasgando a caixa pra não deixar outro pegar. Meu marido conseguiu alertar uma família da roubada.

Nem sempre somos os espertos …

O Vazio

Tirei o trecho a seguir de um artigo da filósofa Márcia Tiburi, da Revista Cult, disponível na íntegra aqui.

“Podemos caracterizar nossa época a partir de três grandes vazios:

1 – O primeiro deles é o vazio do pensamento, tal como o denominou Hannah Arendt. A característica desse vazio é a ausência de reflexão, em palavras simples, de questionamento. Como é impossível viver sem pensamento, o uso de ideias prontas se torna a cada dia mais necessário e vemos ideias se transformarem em mercadorias para facilitar a circulação. Não são apenas as ideias que viram mercadorias. As mercadorias também vem substituir ideias. (…)

Com isso quero dizer que o mundo da aparência substituiu o da essência e isso atingiu até mesmo o pensamento. A inteligência se tornou algo da ordem da aparência, uma moda. (…)

2 – O segundo vazio parece ainda mais profundo, até porque, tradicionalmente tem relação com o território do que chamamos de sensibilidade que está revestido de mistérios. Nesse campo, entra em jogo o vazio da emoção. A impressão de que vivemos em uma sociedade anestesiada, na qual as pessoas são incapazes de sentir emoções, não é nova. Alguns já falaram em culto da emoção, em sociedade excitada, em sociedade fissurada. Buscamos de modo ensandecido uma emoção qualquer. Pagamos caro. (…) A emoção virou mercadoria e o que não emociona não vale a pena. Alegrias suaves e tristezas leves não interessam. Tudo tem que ser extasiante. (…). A questão que está em jogo é a do esvaziamento afetivo. Se usarmos um clichê, diremos que nos tornamos cada vez mais frios, cada vez mais robotizados (…).

3 – Por fim, podemos falar de um vazio da ação. O esvaziamento da política não foi construído de uma hora para outra. (…) Arrancaram a política das entranhas existenciais do ser humano por meio do exercício do pensamento reflexivo que dependia da linguagem e do afeto. No lugar, é posto o “chip fascista” que permite repetir a prepotência e a maldade. Esse chip faz o maior sucesso. Ele ajuda a deixar de pensar no outro, na morte, na dor de viver, na complexidade da vida urbana, na falta de ética. Ele garante o vazio da ação, por meio do qual o povo – que somos todos nós – não deve se permitir ser político, não deve pensar, nem sentir politicamente, não deve participar. Em uma palavra, não deve agir. (…)”

Mais Reflexão, Mais Amor e Mais Ação!

Boa Semana!

*O desenho do lobo uivando foi tirado do livro “Alguns medos e seus segredos”, de Ana Maria Machado. A ilustração, alterada pelo aplicativo Prisma, é de Alcy Linares.

 

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22 comentários sobre “Elixir Mágico

  1. Primeira parte: Aqui há um supermercado q não fui mais fazer compras e um dos motivos é que em todos os corredores há cerca de 3 pontos de prova. Vc mesma se serve e há até de vinho. E eu provava e comprava, o q era um forte adversário à minha dieta. 😁😁
    Segunda parte: qdo leio um texto de filosofia, cada vez entendo mais porque querem tirar filosofia das escolas no Brasil. Não sei como anda esta decisão.
    Adorável texto filosófico. Obrigada.

    Curtido por 3 pessoas

  2. É a “banalidade do mal”… toda vez que o governo não quer o povo pensante, começa atacar os saberes filosóficos, os artistas, os atuantes, vide a ditadura.
    Daí as pessoas começam a achar que não são seres políticos e ficam atrás de “promoções”. Como se a omissão, a ganância e a indiferença não fossem atitudes que influenciam tudo e todos.
    Ao meu ver a filosofia deveria começar desde o primário, como pontua o autor Matthew Lipman. E mais do que ensinar, é se fazer gostar e compreender a filosofia… que não é um bicho de sete cabeças, mas sim um quebra-cabeça que quando montado dá se um enorme prazer de ter participado da criação da cena.
    Obrigada por esse útil post🙋🏽‍♀️

    Curtido por 3 pessoas

    1. ei, se intrometendo na conversa haaah então, eu fico indignado que, até mesmo um amigo meu inteligente para dedéu, compartilhou no facebook que a filosofia está ultrapassada, que deve ser deixado de lado, que, tipo, a ciência deve ser mais levada em consideração, mas eu tipo WTF?, como assim? se partirmos do princípio que a filosofia é o ato de pensar, amor a sabedoria, a busca de sair do senso comum, então como ela é ultrapassada, se é também o estopim para todas as vertentes intelectuais? sabe o mundo tá perdido =(

      Curtido por 1 pessoa

  3. Na condição de professor de filosofia, acrescento às palavras de Cristileine Leão, mais do que útil, o texto/post é um convite ao pensar sobre nossas ações e emoções… para que servem? Aprendi que, no sentido, da utilidade capitalista, a filosofia não serve para nada… por isso, considero-a tão necessária ao agir e pensar humanos…minha pequena Sofia é a filósofa que mais me ensina no momento. Abraços filosóficos.

    Curtido por 2 pessoas

  4. Aqui em Portugal eu descobri uma prática que a princípio, estranhei.
    Mas depois percebi. Produtos alimentares perto do fim do prazo são colocados à venda com preço mais baixo. Mas as etiquetas com o preço são bastante diferentes e indicam explicitamente essa informação…

    Vivemos em um mundo onde todos querem ganhar, e ninguém quer saber do outro. Estou generalizando, eu sei, há muita gente boa, mas a quantidade de vezes que uma pessoa boa, para poder sobreviver, acaba aceitando fazer coisas que não faria em situação normal, é estarrecedor… E lá vamos nós, cada vez mais anestesiados, cada vez mais conformados…

    É muito triste… 😦

    Curtido por 1 pessoa

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