O Direito de Rir

humor

Rir dos outros x Rir com os outros

O Ludo havia me falado do comediante inglês Ricky Gervais, que escreveu The Office. Meu marido baixou a versão americana dessa série que é estrelada pelo ator Steve Carrel e já estamos na segunda temporada. É hilária!

Se você, que está lendo o post, já teve um chefe arrogante, porém ignorante sobre suas próprias funções no trabalho e/ou que adorava fazer piadas desagradáveis para os funcionários vai exorcizar seus fantasmas e se acabar de rir!

A série brinca com as atitudes politicamente incorretas o tempo todo, mas consegue não ser ofensiva, já que o tal chefe – o personagem que encarna todos os preconceitos e abusos de poder- é ridicularizado com olhares de tédio ou de espanto dos funcionários durante o expediente e nos eventos fora do escritório.

tristeza

O Direito de Rir

Yves de la Taille é um professor da Universidade de São Paulo especializado em Psicologia Moral. Há alguns anos eu comprei um livro dele cujo título é “Humor e tristeza: O direito de rir”.

Entre outros temas, ele aborda as piadas de mau gosto, os limites e as alianças entre humor e tristeza, como o humor negro que sempre traz algo triste como tema.

Sobre o direito de rir e o humor, Yves de la Taille explica que existem 2 extremos:

De um lado estão as pessoas que defendem que não há limites para o humor.

Seus argumentos principais são:

  • A liberdade de expressão
  • A única forma de julgar o humor é a sua qualidade, ou seja, se a piada for engraçada (fizer muita gente rir) merece ser contada não importa seu conteúdo
  • O humor é inofensivo. É uma forma de brincadeira que não se deve levar a sério.

Do outro lado estão aqueles que impõem limites intransponíveis para certas formas de humor, como explica o autor:

As razões deste grupo para colocar limites ao riso são variadas porque é um grupo heterogêneo.

  • Há aqueles que proíbem o humor sobre determinados temas como o Sagrado, para alguns religiosos extremistas, por exemplo.
  • Existem os adeptos do politicamente correto, que querem assegurar o respeito a determinados grupos da sociedade para que não sejam alvo de zombaria.

Embora o Professor não se filie a um desses grupos, ele destaca que o humorista tem responsabilidade social e influencia a plateia ao divertir.

Podemos perceber como os programas humorísticos apelam para os estereótipos e os clichês quando falta inspiração. O risco é reforçar preconceitos que demoram para serem desconstruídos.

Ele encerra o livro com o alerta de Doron Rabinovici (2009, p.281)::

“Hoje em dia , é preciso, sobretudo, se perguntar quem ri, com quem ri e contra o quê”.

Chaplin

 

 

 

História Ilustrada do Doce

O Dolce Far Niente do Ludo e do Vico, que estão de férias até domingo, me inspirou a escrever sobre esse livro lindo, informativo e delicioso que ganhei da minha queridíssima tia Francisca: “Mil Folhas – história ilustrada do doce“, da jornalista e tradutora Lucrécia Zappi.

Por este livro, editado pela Cosac Naify, a autora ganhou o prêmio internacional de literatura infantil Bologna Ragazzi Award, na categoria New Horizons, em 2011.

O livro conta tantos fatos históricos e dados geográficos relacionados às guloseimas que eu tive que sortear algumas para sobrar espaço para um cafezinho no final do post!

capa história dos doces

Alfajor

Ela explica, por exemplo, que o alfajor, tem origem árabe (os nomes que começam por “al”, como alfaiate, algodão normalmente têm essa origem).

Era um doce comum nos conventos de Córdoba, na Espanha.

Antes de chegar na Argentina e se tornar típico dos hermanos, não tinha doce de leite na receita e levava gergelim e coentro picadinho.

Brigadeiro

Só na década de 1940 no Brasil os docinhos que se comem em uma só bocada e os bolos de festa com velinhas entraram na moda.

O brigadeiro foi uma homenagem ao militar Eduardo Gomes que se candidatou à presidência da república em 1945 com o seguinte slogan: “vote no Brigadeiro, que é bonito e é solteiro!”

Chiclete

O vidraceiro, inventor e fotógrafo amador Thomas Adams recebeu na sua loja em Nova York a proposta do general mexicano Santa Anna para desenvolver um produto a partir da resina extraída da árvore sapotizeiro.

Adams pensou que poderia fazer pneus com a resina, mas concluiu que o chictli era muito mole para revestir as rodas.

Ao observar uma criança comprando um pedaço de goma de mascar feita de cera de abelha, teve o clic! Adoçou a goma em tiras pequenas e transformou o chictli em chiclete!

historia dos doces

Sorvete

O corajoso aventureiro, Marco Polo, no final do século XIII, provou doces gelados com leites, frutas e mel na Mongólia e ensinou aos venezianos como o leite e o iogurte eram importantes para o povo oriental.

Na Sicilia, à essa época, já faziam uma espécie de raspadinha com gelo, vinho, frutas, pétalas de rosas e jasmim.

Segundo o livro, Catarina de Médici foi a pessoa que mais contribuiu para a fórmula do sorvete nos dias de hoje. Para cada banquete, seu cozinheiro, Rugieri, preparava um sorvete diferente. Além dessa peculiaridade gastronômica, ela ensinou os parisienses a usarem o garfo para comer e a colocarem gelo no copo para esfriar a bebida.

No Brasil, antes do sorvete se popularizar, as pessoas se refrescavam com uma bebida chamada Aluá, feita com farinha de milho ou abacaxi fermentados.

Madagascar era o nome do primeiro navio que trouxe sorvete para nossas terras, em 1834, vindo de Boston. Dos EUA também veio a primeira fábrica de sorvetes que se instalou por aqui, chamada U.S. Harkson, que se tornaria a Kibon anos mais tarde.

doces

Biscoito e Oblata

Doce na idade média ainda não era muito doce porque os recursos para as explosões de sabores eram escassos. Por isso, foi criado o biscoito, pouco adocicado e assado duas vezes para ser bem resistente. Biscoito é uma palavra que vem do latim bis (dois, neste caso, duas vezes) coctus (cozido). Esse doce podia ser consumido durante meses sem estragar. Devia quebrar os dentes. rsrs

A oblata é o biscoito da Roma Antiga que era vendido em troca de moeda ou comida por jovens que trabalhavam nas pastelarias e usavam as sobras para fazer esses biscoitos. Eles tentavam convencer os compradores cantando versos e gritando rimas engraçadas.

Mil Folhas

O grande cozinheiro e confeiteiro Marie-Antoine Carême viveu a miséria e o abandono na infância e a realização profissional, a inventividade e o reconhecimento da Paris aristocrática na vida jovem e adulta no século XIX.

Além da bomba de chocolate, uma célebre invenção sua que eu não poderia deixar de incluir nesta lista de doces incríveis é o bolo que tem 729 camadas de massa e 729 camadas de manteiga. Segundo a autora, Lucrecia Zappi, trata-se de uma “arte da dobradura da massa folhada que já era conhecida entre os gregos e os árabes”, que Carême arredondou a conta para o nome de Mil Folhas.

Uma doce semana para todos!

cafezinho

 

 

 

 

 

 

 

Eu amei um livro didático

flores zen

Um livro didático marcou meu ginásio (últimos anos do ensino fundamental) e minha disciplina preferida, língua portuguesa. Esse livro foi a “Gramática Contemporânea da Língua Portuguesa” do José de Nicola e Ernani Terra, edição 1990, que, com o passar do tempo, sumiu.

O livro apresentava um projeto gráfico que incluía tirinhas de histórias em quadrinhos da Turma da Mônica, do Recruta Zero, do Calvin e de outros personagens que faziam parte do repertório dos alunos daquela época, além da reprodução de obras de arte famosas, como o Abaporu de Tarsila do Amaral, fotografias (tinha uma de grafitagem, que eu adorava, onde se lia “I love you como nunca iloviei ninguém”), letras das músicas “Um Índio”, de Caetano Veloso, “O que será – a flor da pele”, de Chico Buarque, poesias de Vinícius de Morais,“Soneto de fidelidade”, Fernando Pessoa, “Poema em linha reta”, apenas para citar algumas páginas de que me lembro.

Claro que nem todos os exercícios gramaticais eram divertidos, mas o material mais interessante, que consistia nas poesias, letras de música e diferentes gêneros de texto, era também apresentado musicalmente o que tornava o livro ainda mais amado, em sala de aula.

flores asia

Não havia a internet, que hoje oferece às crianças e aos adolescentes acesso imediato a qualquer áudio, texto, imagem ou vídeo que seja do interesse deles e que apresenta informações que se desdobram infinitamente.

Quando avaliada sob o enfoque educativo, a tecnologia sem alguma espécie de mediação, pode levar a uma enchente de dados que se perdem pela ausência de direcionamento, crítica e sentido.

Havia, justamente, um sentido enquanto estávamos na sala de aula, que não se limitava a aprender a matéria para a prova, mas a compartilhar aquela experiência, trocar impressões e desenvolver uma sensibilidade em relação ao conhecimento. Esse livro didático era um guia maravilhoso.

Não enxergávamos apenas assuntos que precisavam ser memorizados, mas construíamos significados que nos aproximavam uns dos outros e dos encantos da língua portuguesa.

Você tem algum livro didático afetivo, queridinho, que marcou seus anos de escola?

Eu adoraria conhecê-lo!

 

Faz Bem ao Coração

medico e boneco

Este post não é sobre alimentação saudável e exercícios, mas sobre relacionamentos em geral.

Hoje em dia, as varas de família e do trabalho estão mais atentas à violência psicológica dentro de casa e no ambiente profissional, mas nem sempre foi assim e ainda existe muita tolerância ao que não deixa pistas pelo corpo, mas que também faz muito mal à saúde física e mental.

Indico os livros da francesa Marie France Hirygoyen, pesquisadora, psiquiatra e psicanalista, que estuda o assédio moral na família e no trabalho desde os anos 1990.

Ela explica que em uma relação afetiva perversa existe uma ação de apropriação, em que o outro se despossui; uma ação de dominação, em que o outro é mantido em estado de dependência e uma ação de impressão, em que o objetivo é imprimir no outro características negativas.

Lua de Fel, de Roman Polanski, é uma dica de filme que mostra a trajetória de uma relação afetiva perversa, como descrito pela pesquisadora francesa.

De acordo com a revista Psychology Today, que estou lendo à conta gotas, existem alguns sinais de que é hora de sair de um relacionamento amoroso. Acho que esses sinais também valem para outros laços afetivos:

  • Você não se reconhece mais: Tudo o que você gostava no seu jeito de ser e que fazia parte da sua singularidade sumiu.
  • Você tem que provar o tempo todo que vale à pena para o outro
  • Você se sente testemunha de um relacionamento em vez de parte deste: Como se o vínculo fosse um certificado que a pessoa carrega, mas não exerce na prática.
  • Você desistiu de ter uma relação saudável com a pessoa que mais importa na sua vida: Você!

Espero que o amor que o Ludo e o Vico recebem em casa e que eles assistem entre mim e o padrasto deles ajude a fortalecer e proteger seus corações!

Love

Nestes tempos em que estamos aprendendo a aceitar as diferenças nos outros, saber aceitar e amar quem somos e nossas singularidades é fundamental. Respeitar os limites de quem convive com a gente também!

A ilustração do médico com o boneco e a criança é do maravilhoso Norman Rockwell. A foto com efeito do aplicativo Prisma é minha e do maridão!

A longa estrada da popularidade

most likable

Hoje cedinho, tomando meu café, abri a revista “Psychology Today” e me deparei com um artigo que criou alguns links na minha cabeça.

  • Black Mirror
  • Banalogias
  • Expectativas e Frustrações

O artigo, resumidamente, explicava o seguinte:

Nosso cérebro é programado para buscar a aceitação do grupo porque nossos ancestrais precisavam pertencer a um grupo para não ficarem sozinhos e mais expostos aos perigos.

Por que devemos buscar “likability” (ser amáveis) em vez de “likes”(popularidade)?

Primeiramente, porque é mais saudável, tanto para o indivíduo quanto para o grupo.

Saber ser amável e agradável para o convívio com os outros começa a ser importante na infância. Tem relação com ajudar as pessoas e criar relações harmônicas.

Status é uma preocupação que nasce na adolescência, quando se procura atenção e destaque no grupo.

  • Black Mirror

Quem ainda não assistiu à série de ficção científica Black Mirror, da Netflix, assista porque tem alguns bons episódios sobre a influência da tecnologia em todas as áreas da vida humana. No primeiro episódio da terceira temporada, Nosedive, a popularidade (medida pela quantidade de likes de 4 ou 5 estrelas em um site de relacionamentos) se torna a moeda necessária para comprar os bens (casa, carro etc) valorizados pela sociedade.

A personagem principal de Nosedive faz de tudo pelos likes e vai se tornando uma caricatura do que é considerado popular, perdendo a própria personalidade e a crítica de si mesma e da sociedade em que vive. O final é o redentor reencontro dela com o que se perdeu na longa estrada da popularidade.

Be a Man!

O que podemos fazer para não deixar a busca por status (ou likes) nos dominar?

Segundo o artigo, algumas partes do cérebro festejam quando temos seguidores e curtidas ou chamamos a atenção em algum ambiente, positivamente. A boa notícia é que as mesmas áreas do cérebro também são ativadas quando ajudamos os outros e nos sentimos conectados a um grupo!

  • Banalogias

No livro Banalogias, de Francisco Bosco (escritor e filósofo, filho do músico João Bosco), um dos textos de que mais gostei se chama “Dialética dos Playboys” e trata exatamente da dificuldade de amadurecer e se reinventar quando se é muito popular na adolescência por razões que não fazem sentido na vida adulta.

Aqui está um trechinho:

“Pois como se reconhece um playboy decadente? Simples: Ele é igualzinho ao que era há dez anos. Tudo mudou à sua volta; ele não. A melancolia dos playboys decaídos decorre desse autoaprisionamento, dessa impossibilidade de reinventar-se. Vestem-se do mesmo jeito, fazem as mesmas coisas, falam a mesma linguagem. Mas aquilo que era liberdade é agora um gritante beco sem saída existencial”.

Quem quiser ler o texto inteiro (vale a pena) pode encontrá-lo clicando em leia um trecho no site da Saraiva.

Segundo o artigo, alguns estudos constataram que os adolescentes muito populares passam as outras fases da vida tentando recuperar a antiga popularidade e, nos primeiros anos da fase adulta, costumam se envolver em comportamentos de risco, além de viverem relacionamentos mais tumultuados.

  • Expectativas e Frustrações

É normal desejar para si mesmo e para os filhos uma vida só de sucessos e aceitação dos pares. Tem momentos e ambientes em que isso acontece naturalmente e outros em que experimentamos mais dificuldades e dissabores. Eu me tranquilizo só de saber que o Ludo e o Vico gostam de ir para a escola, que é o mundo das crianças e dos adolescentes. Eles têm amigos e também, infelizmente, alguns desafetos (já que esse mundo não é perfeito).

O artigo termina com um recado que se aplica ao grupo da maioria das pessoas que eu conheço e no qual também me incluo. Tirando casos de bullying, que podem ser traumáticos e requererem maiores cuidados e acompanhamento, alguns sofrimentos da juventude fortalecem o espírito na vida adulta e nos tornam sensíveis aos outros e atentos aos sinais que trarão mais benefícios à vida a longo prazo.

Homecoming

As ilustrações são do artigo “The long reach of popularity”, Revista Psychology Today, Jun.2017, e do livro “Norman Rockwell 332 Magazine Covers”.

Longe da Árvore: Surdos

Voltei ao livro Longe da Árvore, de Andrew Solomon, para continuar sua resenha por capítulos.

Este capítulo sobre surdos descreve as relações familiares e a forma como a sociedade – majoritariamente ouvinte – percebe os surdos.

alunos abelhas

Algumas agressões da sociedade aos surdos ao longo da história:

  • No século XIX, Alexandre Graham Bell, que era filho ouvinte de mãe surda e casado com uma mulher surda depreciava os sinais da língua delas. Ele fundou uma associação “educativa” que condenava o casamento entre surdos e o contato entre alunos surdos! Bell defendia a esterilização de todos os surdos! Thomas Edison também aderiu ao movimento para extinguir a língua de sinais.
  • O movimento contra a língua de sinais culminou, em 1880, no Congresso de Milão – primeiro encontro internacional de educadores de surdos – que decretou a proibição da língua de sinais, chamada pejorativamente de “manualismo”.
  • Antes do Congresso de Milão havia escolas residenciais para surdos aprenderem a língua de sinais.
  • Na época da primeira Guerra Mundial 80% da crianças surdas eram educadas sem a língua de sinais e tomavam reguada na mão se tentassem se comunicar dessa forma.
  • Os surdos eram considerados idiotas, por isso, na língua inglesa, a palavra dumb (mudo) se refere a uma pessoa pateta.

O reconhecimento da língua de sinais no século XX e no século XXI:

  • Quando o linguista William Stokoe publicou “A estrutura da língua gestual”, em 1960 (!) os estudiosos reconheceram sua gramática própria, complexa e profunda, com regras e sistemas lógicos. Até então, a língua de sinais era considerada um sistema grosseiro de comunicação gestual.
  • A língua de sinais brasileira (Libras) só foi reconhecida por lei como uma língua em 2002!!!

abelha dançando

 

Sobre aquisição da linguagem:

“As crianças surdas adquirem a língua de sinais da mesma maneira como as crianças que ouvem adquirem a língua falada; a maioria pode aprender a linguagem sonora escrita como uma segunda língua. Para muitas, no entanto, a fala é uma ginástica mística da língua e da garganta, enquanto a leitura labial é um jogo de adivinhação.”

“Se passarem da idade-chave para a aquisição da linguagem sem adquirir alguma língua por completo, elas não poderão desenvolver habilidades cognitivas plenas e sofrerão permanentemente uma forma evitável de retardo mental.

“Não podemos imaginar pensamento sem linguagem, tanto quanto não podemos imaginar linguagem sem pensamento. A incapacidade de se comunicar pode resultar em psicose e disfunção.”

FILHOS SURDOS DE PAIS SURDOS:

“Filhos surdos de pais surdos com frequência têm um grau maior de realização do que filhos surdos de pais ouvintes.”

Juntando a afirmação acima com outras informações do livro:

“Em média, a criança de dois anos que ouve tem um vocabulário de trezentas palavras; a criança surda de pais ouvintes da mesma idade tem um vocabulário de trinta palavras.”

“A cultura surda proporciona um caminho para as pessoas surdas se reinventarem, não tanto se adaptando ao presente, mas herdando o passado. Ela possibilita que os surdos pensem em si mesmos não como pessoas com audição inacabada, mas como seres culturais e linguísticos em um mundo coletivo com os outros.”

Tudo leva a crer que é mais fácil ser surdo e ter pais surdos do que ter pais ouvintes porque o contato com a língua de sinais e com a cultura surda desde cedo são muito importantes para o desenvolvimento da criança surda.

abelhas conversando

COMO FICAM AS FAMÍLIAS DE PAIS OUVINTES E FILHOS SURDOS?

A língua de sinais e a cultura surda distanciariam os pais ouvintes dos filhos surdos?

Talvez sim. Por essa razão, muitos pais ouvintes procuram outros caminhos para os filhos, como o implante coclear.

O implante coclear não permite que se ouça, mas possibilita algo que se assemelha à audição. Dá à pessoa um processo que é (às vezes) rico em informações e (em geral) desprovido de música. Implantado desde cedo, pode proporcionar uma base para o desenvolvimento da linguagem oral.”

Além de possíveis reações adversas e complicações na cirurgia do implante coclear, ele proporciona apenas versões dos sons que os ouvintes escutam.

O autor alerta outro risco para aqueles que optam pelo implante coclear dos filhos:

“… algumas crianças com implantes não expostas à língua de sinais porque se espera que desenvolvam a fala, podem cair na assustadora categoria dos desnecessariamente prejudicados, que têm uma língua principal escassa.”

“Embora possa ser difícil para as pessoas surdas aprender a falar, também é difícil para os pais aprender a língua de sinais – não porque sejam preguiçosos ou presunçosos, mas porque seus cérebros estão organizados em torno da expressão verbal … Um dos motivos que levam os pais a fazer implantes nos filhos é para que possam se comunicar com eles. Talvez seja sábio fazê-lo: a intimidade entre pais e filhos é um dos pilares da saúde mental para ambas as partes.”

flores

Por muitas histórias tristes, traumáticas e outras felizes e cheias de superação, o autor trata das dificuldades de escolher o caminho que ajudará os filhos e os pais a serem mais próximos e a se sentirem integrados como família e como indivíduos pertencentes a uma cultura ouvinte e/ou surda.

Espero que vocês tenham gostado das reflexões deste capítulo.

As lindas ilustrações deste post foram tiradas de um trabalho da professora de aquarela do Jardim Botânico do Rio de Janeiro Maria Angélica de Sá Earp.

Até o próximo!!!

 

 

 

 

Longe da árvore

chão do beijo de klimt

Andrew Solomon é um escritor norte-americano que trata de forma profunda e natural uma diversidade de temas nos seus livros.

Além de escritor, ele é jornalista, ativista do movimento LGBT, do tratamento de doenças mentais e das artes, como descreve na sua página.

Os dois livros que eu tenho dele são “O demônio do meio dia” e “Longe da árvore: pais, filhos e a busca da identidade“.

O primeiro é uma enciclopédia sobre a depressão (os sintomas, a aceitação social, os medicamentos, as terapias para o corpo, a mente e a alma, juntas e separadas, e toda a saga do escritor para conviver com a doença). Depois desse livro, os outros que tratam do tema ficaram parecendo cartilha do posto de saúde.

Comprei “O demônio do meio dia” porque queria entender e tentar ajudar pessoas amadas que viviam e vivem um pesadelo quando o tal demônio ataca. Está emprestado.

longe da árvore

O segundo livro, “Longe da Árvore”, também traz as vivências do autor, disléxico e homossexual e de outras minorias tratadas em casa e na rua como deficientes, gênios ou desajustados.

Solomon entrevistou mais de 300 famílias ao longo de uma década  e escreveu sobre anões, surdos, autistas, prodígios, esquizofrênicos, transgêneros entre outros seres humanos diferentes do padrão comum à maioria da sociedade, partindo da forma como suas famílias os receberam no mundo e o impacto dessa relação nos filhos e nos pais.

Uma frase do autor, parodiando Tolstói, que está na orelha do livro resume sua essência:

“As famílias infelizes que rejeitam seus filhos diferentes têm muito em comum, ao passo que as felizes que se esforçam para aceita-los são felizes de várias maneiras”.

São 820 páginas, além das notas de referências. Dá pra ler os capítulos em sequência ou escolhendo sua própria ordem de interesse.

No primeiro capítulo, ele classifica as identidades entre pais e filhos em dois grupos:

  • Identidades verticais: cor da pele, linguagem, religião entre outros traços transmitidos pelas cadeias de DNA ou pelas normas culturais compartilhadas
  • Identidades horizontais: genes recessivos, mutações aleatórias, valores ou preferências que a criança não compartilha com seus genitores.

Segundo o autor:

“As identidades verticais em geral são respeitadas como identidade; as horizontais são muitas vezes tratadas como defeitos”.

meio do beijo de Klimt

Selecionei alguns trechos do primeiro capítulo sobre o conceito de deficiência, saúde e identidade horizontal:

“Ser gay era uma deficiência no século XIX de um modo que não é agora; hoje, é uma deficiência em alguns lugares de uma forma que não é em outros; e, para mim, era uma deficiência na juventude e não o é mais hoje”.

A anorexia, que ele cita como exemplo de doença mental que tem a maior taxa de mortalidade entre esse tipo de doenças, não pode ser estilo de vida defendido pela via da identidade.

“Está claro que identidade é um conceito finito. O que não está claro é a localização dos seus limites“.

O autor narra que sua mãe o ajudou a superar várias dificuldades trazidas pela dislexia, tanto que ele se tornou um jornalista e escritor. Nesse sentido ele traça a linha subjetiva entre doença e identidade na sua vida.

“Em minha própria vida, a dislexia é uma doença, enquanto ser gay é uma identidade. Pergunto-me, porém, se teria sido o contrário caso meus pais não tivessem conseguido me ajudar a compensar a dislexia, mas tivessem alcançado o objetivo de alterar minha sexualidade”.

Sobre o que os filhos escutam quando os pais rezam por uma cura, quando gostariam que aceitassem suas identidades:

“Jim Sinclair, uma pessoa autista intersexual, escreveu: Quando os pais dizem “Eu gostaria que meu filho não tivesse autismo”o que eles realmente estão dizendo é “Gostaríamos que o filho autista que temos não existisse e tivéssemos em vez dele um filho diferente (não autista)”. Leiam isso de novo. Isso é o que ouvimos quando vocês lamentam por nossa existência. Quando vocês rezam por uma cura.”

o beijo de klimt

Sobre o amor e o sofrimento dos pais:

“Os homens e mulheres que acreditam que ter um filho deficiente lhes deu um conhecimento ou esperança que não teriam de outro modo encontram valor em suas vidas, e aqueles pais que não veem essas possibilidades muitas vezes não o encontram.

Aqueles que acreditam que seu sofrimento foi valioso amam com mais facilidade do que aqueles que não veem sentido em sua dor.

Sofrimento não implica necessariamente amor, mas amor implica sofrimento, e o que muda com esses filhos e suas situações extraordinárias é a forma do sofrimento – e, em consequência, a forma do amor, forçado a assumir uma feição mais difícil.”

Esses trechos estão todos no primeiro capítulo.

O livro é tão amplo e profundo que eu precisaria de vários posts para tratar de cada capítulo separadamente e essa talvez seja uma boa ideia.

Assim sendo, gostaria que esse post fosse apenas um aperitivo para os próximos capítulos de “Longe da Árvore”.

Até o próximo!