Só se é Feliz

 

Enrolada nas cobertas comecei e terminei a leitura de Aula de Inglês, da escritora Lygia Bojunga, que peguei  emprestado com a minha tia Francisca.

Não esperava que eu fosse me emocionar, mas chorei lá pela página 195, pela beleza de um amor impossível, transformado em carinho, saudade e generosidade.

O livro trata de relações de amor próprio, de amor idealizado, de conflitos entre gerações…

  • Um menino que amava uma jovem viúva
  • Um senhor encantado por uma aluna
  • Uma leitora fascinada por um cínico escritor
  • Uma tia querida que amou uma vez e ainda amava viver

Pra resenhar a leitura pensei em três questões sobre o amor e respondi com trechos do livro:

Só é feliz quem ama?

 “- Vê se pode meu querido, a minha linda filha, a minha sedutora Teresa Cristina, metida lá no meio daquela miséria, daquela fome, daquela violência, daquele calor infernal, daquilo tudo que o Rio tem bastante, mas que pelo jeito ela ainda quer mais; e você não vai acreditar no que ela disse – sacudiu o professor – você não vai acreditar! Disse que nunca se sentiu tão bem com ela mesma feito agora, vê se pode!

– Se ela está feliz…”

Só é feliz quem ama alguém?

“- Não são só as pessoas que sabem retribuir o que a gente dá pra elas. Nem só os bichos. Nem mesmo só as plantas. As coisas também. A casa. Os móveis. Os objetos. A roupa. Os adornos. Tudo tem uma vida própria: cada coisa é o que é; e os anos foram me mostrando que quanto mais atenção a gente presta nelas mais elas respondem, retribuem, cada uma ao seu jeito, fazendo com que a gente se sinta cada vez mais acompanhada quando vem pra perto delas.”

Só é feliz quem ama alguém e é correspondido?

“Tentou se lembrar se algum dia e quando tinha sido feliz com alguém. Não… com alguém, não… Lembrava da irmã, do filho, da mulher, das namoradas, da tia Penny (…); e a imaginação do Professor se demorava fabricando cenas e mais cenas de como devia ser a felicidade com alguém. Mas ele tinha sido feliz, sim… com a câmera, com os livros, com a casa, com o mar, com a floresta…”

Só não descrevo um pouco mais da trama, nem retiro outros trechos do livro porque recomendo a cada leitor e leitora que viva sua própria experiência com essa bela obra da premiada escritora.

Bom Domingo e uma Ótima Semana a Todos!

Anúncios

Lobo do Homem

 

Prólogo da Ilha dos Cachorros

Dez séculos atrás, antes da Era da Obediência, cães livres governavam suas liberdades marcando seus territórios.

Buscando a ampliação de seus domínios, a Dinastia Kobayashi, amante de gatos, declarou guerra e atacou com fúria os incautos animais de quatro patas.

Na véspera da aniquilação total dos cachorros, um menino guerreiro que simpatizava com a condição dos cães sitiados, traiu sua espécie. Decapitou a cabeça do líder do clã Kobayashi e empunhou sua espada berrando o seguinte grito de guerra haiku: Eu viro as costas – para os humanos! 

Ele seria, futuramente, conhecido como o lendário menino Samurai. Descanse em paz.

No final das sangrentas guerras de cães, os vira-latas vencidos tornaram-se animais de estimação sem poder:

Domesticados

 Dominados

 Desprezados

Mas eles sobreviveram e se multiplicaram.

Os Kobayashis, no entanto, nunca perdoaram seu inimigo conquistado.

Sina Canina

Por que chamar mulher de cachorra ou chamar homem de cachorro é considerado ofensivo se os cães são os melhores amigos dos humanos?

Dia de cão é uma expressão que designa um dia a ser esquecido.

Mundo cão e Vida de cão trazem a mente imagens de sofrimento e injustiça.

Fazer uma Cachorrada é agir de forma desonesta.

Quando teria sido o momento em que os cachorros viraram sinônimo de tanta coisa ruim na vida dos seus mestres humanos?

Excepcionalismo Humano x Abolicionismo Animal 

Wesley Smith (WS)Pesquisador do Discovery Institute e autor de “A Rat is a Pig is a Dog is a Boy: The Human Cost of the Animal Rights Movement” defende o excepcionalismo humano e afirma que o movimento pelos direitos animais é antiético por atribuir o mesmo valor moral aos humanos e animais baseado na senciência, mas acha que devemos melhorar o tratamento humanitário dos animais e métodos de criação.

Gary Francione (GF)Desenvolvedor da teoria abolicionista de direitos animais e autor de “Introduction to Animal Rights: Your Child or the Dog?” defende o direito do animal de não ser propriedade e argumenta que todo uso de animais é moralmente injustificável e que devemos abolir, e não regulamentar, a exploração animal.

WS:Ativismo de direitos animais… não é apenas sobre o sofrimento; é sobre não ter o direito de possuir um animal, e os animais não tendo o direito de serem possuídos. Gary acredita que nós nem sequer deveríamos ter cães, não importa o quão bem nós os tratamos, porque, como ele chama-os, são refugiados em um mundo no qual eles não pertencem. Portanto, não é apenas sobre o sofrimento; é uma visão de direitos na qual a ideia de possuir animais é vista como equivalente à escravidão.

GF: Eu sou contra qualquer uso de animais em absoluto. O cão-guia está no topo da minha lista, Michael? Não, absolutamente não. Deixe-me apenas esclarecer uma coisa. Minha posição é muito simples: todos nós concordamos que é errado causar sofrimento e morte desnecessários aos animais, e que os motivos de diversão, prazer ou conveniência não constituem necessidade. Mas 99.999999% de nossos usos de animais só podem ser justificados por motivos de diversão, prazer ou conveniência.

*Todas as imagens desse post foram tiradas de cenas do filme A ilha dos Cachorros, de Wes Anderson, que assistimos no Feriado de Páscoa, por indicação do Ludo

Boa Semana!

Keiko e Margherite

Primeira vez em Tóquio, Margherite entrou na loja de conveniência e perguntou a atendente Keiko:

-Por favor, tem pãozinho de espelta?

Keiko ofereceu um Oniguiri e quis saber o que era espelta.

Até aí nada demais. Parte da cultura de um povo é a comida.

Só que Margherite e Keiko não são consideradas pessoas comuns nas suas respectivas culturas.

Além disso, elas não se encontraram na ficção.

Pelo menos, não nos livros Querida Konbini e A Diferença Invisível.

Embora o primeiro seja um romance passado em Tóquio e o segundo uma HQ inspirada na vida de uma parisiense, as duas histórias falam de pessoas que não cabem nas regras e expectativas sociais.

Primeiro pensei nas semelhanças e diferenças entre Keiko e Margherite e nas culturas que as sufocaram.

Depois, formulei 7 perguntas de mau gosto que caberiam nos universos das duas e também no seu e no meu.

A resenha de Querida Konbini que me despertou o interesse pelo livro foi a do blog Lulunettes.

Sobre A Diferença Invisível recomendo a resenha do Muquifo Literário e a palestra da autora, Julie Dachez, em vídeo do TED X.

Depois das resenhas, como combinado, vamos às perguntas de mau gosto e algumas sugestões de respostas.

1) Japonês é tudo igual?

“… O preconceito é abjeto, é nojento, porque ele assassina a individualidade da pessoa, antes de qualquer discussão. Ele dispensa o que é o indivíduo, sua história, seu esforço, suas crenças, seus sonhos, suas particularidades. Ele elimina qualquer chance desse indivíduo expor o que ele tem só de seu. E o faz com uma só noção:

(Japonês, ou qualquer outro) é tudo igual.”

Texto tirado de “Racismo à moda da casa”, do site Geledes

2) Países civilizados são os que difundem o conhecimento e o progresso?

“… Tomando o homem branco como símbolo máximo e universal da humanidade e da civilização, cientistas europeus dissecaram, mediram, patologizaram e classificaram os corpos considerados desviantes do padrão masculino e eurocêntrico. Esse discurso científico justificou uma série de práticas políticas racistas e sexistas, institucionais ou não, que permanecem até os dias de hoje.”

Texto tirado do site da Funarte sobre o espetáculo “Vênus Negra, um manual de como engolir o mundo”.

3) Autista sente empatia?

“… Da mesma forma do que indivíduos não autistas, autistas podem ter empatia demais, mesmo que outras pessoas não percebam ou que eles não consigam demonstrar. Um autista pode não se sentir confortável em velórios, por exemplo, seja pela dificuldade de chorar e/ou sentir vontade de rir em momentos inesperados. … Antigamente, os médicos e os psicólogos – alguns ainda o fazem … – podiam interpretar alguns desses comportamentos como se fossem transtornos mentais, como a esquizofrenia, sociopatia e outros, aumentando ainda mais o preconceito, exclusão e uso de medicamentos desnecessários.”

Texto tirado do post “Autismo: A importância de escutar e interpretar o autista” do Blog do Ben Oliveira

4) Se não é igual, é menos normal e menos humano?

“Pego rapidamente as manias das pessoas ao meu redor, sobretudo em relação ao jeito de falar. No momento minha fala é uma mistura do jeito de Izumi e de Sagawara.

Acredito que isso aconteça com a maioria das pessoas… Depois que Izumi começou a trabalhar aqui, Sasaki passou a desejar “bom trabalho!” exatamente no mesmo tom que ela. Também teve a vez em que uma amiga de Izumi … veio nos ajudar no serviço, e as roupas das duas eram tão idênticas que pareciam a mesma pessoa. Talvez o meu próprio jeito de falar também tenha contagiado alguém. Acho que é assim, nos contagiando mutuamente, que mantemos nossa humanidade.”

Texto tirado do livro Querida Konbini, página 33

5) Como se pega ranço  de quem mal conhecemos?

“Pouco tempo depois de começar a trabalhar, percebi que todos os colegas se alegram quando você fica bravo pelas mesmas coisas que eles. Se alguém reclama do gerente ou diz que fulano não está trabalhando direito eu faço coro a essa indignação, isso gera um sentimento de solidariedade e deixa todo mundo contente.

Observo o rosto de Izumi e Sugawara e respiro aliviada. Ufa, estou me saindo bem como ser humano.”

Texto tirado do livro Querida Konbini, página 36

6) Asperger tem cura?

“Somos todos geniais, mas se você julgar um peixe por sua capacidade de subir em uma árvore ele passará o resto da vida acreditando que é estúpido.”

Texto e ilustração tirados de um dos quadrinhos da página 134 do livro A Diferença Invisível.

7) O normal é brincar, estudar, ter amigos, socializar, namorar, trabalhar, casar e ter filhos?

“Margherite tem 30 anos.

Ela ama animais, dias ensolarados, chocolate, comida vegetariana, seu cãozinho e o ronronar dos seus gatos.”

Texto e ilustração tirados da página 178 do livro A Diferença Invisível.

Boa semana!

 

Presente

Onipresente

Ontem aconteceu comigo mais uma dessas estranhas simbioses entre a mente e a  internet, que parece que adivinha o que pensamos e escuta o que conversamos.

Tudo começou pelo Facebook, onde li um apanhado do pensamento do filósofo Alan Watts, de quem eu nunca tinha ouvido falar. Segundo o texto do FB, a voz do falecido Watts “aparece” conversando com o sistema de computador – Samantha- no filme Ela (Her). Deu até vontade de rever.

Os presentes de Alan Watts

Na música, ninguém faz do final o objetivo.

Se fosse assim, os melhores maestros seriam os que tocassem mais rápido; e existiriam compositores que só escreveriam finais. Pessoas iriam aos concertos para ouvirem apenas o último acorde — porque esse seria o final.

Mesma coisa na dança — você não busca um ponto particular na sala; onde você deveria chegar. O objetivo da dança toda é dançar.

Não vemos isso ser traduzido pela educação para a vida diária.

Aprenda por aprender!

A eternidade é agora … isto é, tornar-se parte integral do processo – seja o que for – e não se concentrar em um objetivo final sempre ilusório.

Não nos amarrarmos ao resultado final é algo que a maioria das pessoas nunca entenderá porque é contra-intuitivo.

Este ideal foi um foco central da filosofia de Alan Watts.

Presente Espera

Com essas ideias e algumas conversas off-line me lembrei da música do Chico Buarque  Quando o Carnaval chegar que fala do Presente como o Tempo de Espera, por motivos internos e externos ao indivíduo.

E quem me ofende, humilhando, pisando
Pensando que eu vou aturar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
E quem me vê apanhando da vida
Duvida que eu vá revidar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Eu vejo a barra do dia surgindo
Pedindo pra gente cantar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar
Eu tenho tanta alegria, adiada
Abafada, quem dera gritar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Presente que Flui

O Presente não é uma espera durante o Carnaval, nem quando alcançamos o “milagre” do Estado de Fluxo fazendo ou apreciando Artes ou outras Atividades.

Fernando Pessoa devia fluir nas suas realidades alternativas:

Certas horas-intervalos que tenho vivido, horas perante a Natureza, esculpidas na ternura do isolamento, ficar-me-ão para sempre como medalhas. Nesses momentos esqueci todos os meus propósitos de vida, todas as minhas direções desejadas. Gozei não ser nada com uma plenitude de bonança espiritual, caindo no regaço azul das minhas aspirações. Não gozei nunca, talvez, uma hora indelével, isenta de um fundo espiritual de falência e de desânimo. Em todas as minhas horas libertas uma dor dormia, floria vagamente, por detrás dos muros da minha consciência, em outros quintais; mas o aroma e a própria cor dessas flores tristes atravessavam intuitivamente os muros, e o lado de lá deles, onde floriam as rosas, nunca deixava de ser, no mistério confuso do meu ser, um lado de cá esbatido na minha sonolência de viver.

De volta ao Presente Espera

Antes de buscar o filme Ela (Her), descobri, pelo Google, outro filme, ainda mais próximo do nosso presente, de 2019: Estou me guardando para quando o Carnaval chegar, do cineasta brasileiro Marcelo Gomes.

“O filme fala de uma cidadezinha perdida no Brasil que produz muitos jeans, mas também está falando de nós, da nossa vida, do nosso dia a dia”.

“… é “impressionante como o passado da revolução industrial se encontra com o futuro”, no que talvez seja “uma enorme Toritama (cidade onde se passa o filme)”.

“Dedicamos nossa vida a trabalhar, competindo com o vizinho nesta guerra “neoliberal” na qual as relações sociais acabaram”.

“Talvez na China, no Paquistão e na Índia tenha ocorrido o mesmo, mas lá não há carnaval.”

 

 

Achados e Perdidos

Pra onde foi o post que não salvei em rascunho?

E o erro sem testemunho?

Juntaram-se às horas passadas?

Tocam gaita nas encruzilhadas?

Integram o gás carbônico?

Estão vivos no universo subatômico?

Até pousarem no queijo com sabor estranho

Na camisa que encolheu de tamanho

Quando, então, dão enjoo e coceira

Pulam o almoço e prostram a tarde inteira

Sem nexo de causalidade, isentos de maldade

Só pra me responder que aqui estão, mesmo sem fazer parte

Banho de Cheiro

Eu quero um banho de cheiro
Eu quero um banho de lua
Eu quero navegar
Eu quero uma menina
Que me ensine noite e dia
O valor do bê-a-bá
Banhos
  • Pra andar com fé: tome um delicioso banho de mar ou de água iodada
  • Pra levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima: tome um bom banho de pinho
  • Pro mundo acordar e a gente dormir: banhe-se em água morna com chá de camomila ou 500 g de flor de tília (repousar nesse banho por 20 minutos)
O bê-a-bá dos seus olhos
Morena bonita da boca do rio
O bê-a-bá das narinas do rei
O bê-a-bá da Bahia
Sangrando alegria
Magia, magia, nos filhos de Gandhi
Não Beba se…
  • estiver tomando antibiótico, anti-histamínico, antifúngico, anti-inflamatório, ansiolítico, antidepressivo, barbitúrico ou analgésico
  • estiver dirigindo, falando ao celular, sozinho (a), triste, indeciso (a), desesperado (a)
  • não precisa
No bê-a-bá dos baianos
Que charme bonito, foi o santo que deu
O bê-a-bá do Senhor do Bonfim
O bê-a-bá do sertão
Sem chover, sem colher
Sem comer, sem lazer
O beabá do Brasil
A música “Banho de Cheiro”, famosa há muitos carnavais, pela voz de Elba Ramalho, é do compositor Carlos Fernando.
Bom Carnaval!!!

Poema de duas leituras

Existia feito erva daninha nos quintais

Enlameava bens comuns e dominicais

Protegia reformas e contra reformas nos jornais

Pois lhe serviam de cobertura, disfarce e muito mais

 

Constrangia quem não seguia suas regras sociais

Seriam conjunturais seus desconhecimentos gerais?

Sumia diante de princípios morais e fins racionais

Repartia o ganho com regulares comensais

 

Cabia onde não lhe cabia por ocasião dos cabedais

Dividia o tempo em fatias, assim como seus desiguais

Nascia mamífero entre outros tantos animais

Morria sem dó e sem paz

* As imagens foram tiradas do cartaz da comédia Trocando as Bolas que eu adorava assistir na Sessão da Tarde quando era criança