Duas Linhas

Hoje cometi uma ousadia aqui no blog.

Escrevi uma poesia. Ou seria prosa poética?

Da última vez que me aventurei como poetisa e mostrei para alguém minha produção eu estava no primário (ensino fundamental). Na época foi ótimo. Ganhei os parabéns dos colegas e da professora na escola.

De lá pra cá não tive outra oportunidade ou fiquei com vergonha de me expor. Não sei o que veio primeiro.

Duas linhas é sobre a amizade e a passagem do tempo.

Duas linhas

Era uma vez dois rolos de linhas.

Foram comprados juntos para costurar roupas de criança pequena.

Viviam se sujando no recreio, de gelatina, suco e areia.

Depois de lavados e colocados no sol para secar espichavam.

Já não serviam para criancinhas, mas para bolsas de meninas vaidosas,

Nelas, guardavam suas bijuterias de corações e papéis de carta coloridos.

Os rolos ainda tinham muita linha para desenrolar.

Surpreendentemente as espessuras das linhas mudavam conforme se descobriam.

Enfeitaram as camisetas das jovens colegiais com flores românticas e delicadas.

As linhas seguiram juntas por muito tempo.

Passavam a combinar com novos tecidos e texturas em colchas de retalhos e tapeçarias.

Remendaram a toalha de mesa no Natal, usada desde a virada do século XXI.

Vinte anos se passaram e com eles aniversários, bailes, festas, casamentos e batizados.

Só uma linha conseguia se lembrar de tudo que tinham vivido.

A outra se preocupava em estar fina para passar pelo buraco da agulha.

De amigas, passaram a concorrentes e, enfim, paralelas, jamais se cruzando novamente.

Um rolo ainda estava guardado no armário até hoje. Do outro já não restava um fiapo.

linhas

 

 

 

 

 

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