Espaço para passar o Tempo

Bairro_do_Limoeiro

O que é espaço para passar o tempo?

A própria casa, a casa dos amigos, a casa dos parentes, espaços públicos e privados de lazer como o parque, a praça, os museus, o cinema, o teatro…

“É só colocar os pés na rua que se gasta dinheiro” dizem.

Para muitos passeio = shopping.

Onde moro não tem shopping. Tem parques, praças, museus, cinemas, livrarias, teatro, algumas galerias, restaurantes e lojas de rua.

Adolescentes e adultos, quando querem reclamar, dizem que há pouca variedade de lazer porque não tem shopping (!) como nas cidades maiores.

Na minha modesta observação não tem porque não precisa.

Não há tanto dinheiro circulando que demande esse trambolho na paisagem urbana ou ladrões de rua que justifiquem o esconderijo, por enquanto…

pracinha

Paraísos Artificiais

“Tanto em sentido raso, quanto em sentido profundo, toda cidade é artificial: ruas, praças e prédios não brotam espontaneamente no mundo natural como bromélias, cajueiros ou acácias… O que temos é que os centros tradicionais vêm passando boa parte de suas atividades para os neocentros, mas uns e outros são igualmente artificiais…”

“As pessoas dedicam à banalidade dos corredores sempre iguais (do shopping) o flanar e o bem estar que não conseguem viver no corpo estranho de sua própria cidade”.

em casa na cidade

“Se você consegue fazer adolescentes acreditarem que a melhor coisa a fazer num sábado à noite é ir a um shopping, então você consegue desenvolver atitudes nas quais a única coisa que importa é quão chique é seu carro e por aí vai”. (Noam Chomsky)

flanando na cidade

Consumir e seus Sinônimos

CONSUMIR. Sin. Gastar, corroer, extinguir, destruir, estragar, devorar. Enfraquecer, debilitar, abater: Moído de disciplinas, consumido de jejuns (Sousa). Despender, absorver, gastar. Apagar, obliterar, expungir: O tempo consumiu as inscrições. Desgostar, afligir, ralar, mortificar: Consomem-no os desvarios do filho. Empregar, aplicar, dedicar, consagrar: Os autores em cuja lição tenho consumido a mor parte da minha idade (H. Pinto). Comungar (o padre à missa). -SE. Ralar-se, mortificar-se, afligir-se, amofinar-se, apoquentar-se.”

criança lendo

*Os textos usados em Paraísos Artificiais foram extraídos do livro Mulher, Casa e Cidade, de Antonio Risério, editora 34. 1ª edição, 2015.

*Os sinônimos de Consumir  em Consumir e seus Sinônimos foram inteiramente copiados do Dicionário de Sinônimos e Antônimos da Língua Portuguesa, de Francisco Fernandes, Editora Globo, 38ª edição, revista e ampliada por Celso Pedro Luft,, 1999.

*O texto de Noam Chomsky foi tirado de uma entrevista, por Nathan Fernandes, publicada em 24 de agosto de 2017, na Revista Galileu.

*A ilustração do bairro do Limoeiro, onde se passam as histórias da Turma da Mônica, foi tirada deste site

*As demais ilustrações são dos livros da Coleção Criança Curiosa, que eu comentei aqui muitos posts atrás: De onde as coisas vêm (ilustradores Émilie Chollat e Robert Barborini) e O espaço (ilustradores Olivier Latyk e Philippe Mignon).

Boa semana!!!

Elixir Mágico

lobo uivando

Essa semana o post relata uma experiência que parecia até engraçada na hora, pois foi inusitada para mim e para o meu marido, mas passado um tempinho se mostrou amarga pela constatação da má fé que rege as relações entre as instituições e as pessoas e entre as próprias pessoas que se enxergam como mercadorias.

Pra suavizar esse tom distópico lembrei do clipe de Say Say Say, com o Michael Jackson, o Paul e a Linda McCartney, em que eles tentavam vender um “elixir mágico” e saíam enganando um monte de gente e fugindo de uma cidade para outra.

Os Trouxas

Sábado passado, eu e meu marido fomos a um mercado enorme aqui em Petrópolis, desses que vendem eletrodomésticos, comida, roupas, etc.. Já no estacionamento ouvimos um homem anunciar que aquela filial da rede de supermercados havia sido escolhida para uma promoção e as pessoas dentro do mercado tinham que se aproximar do locutor.

Ele estava em cima de uma escada prestes a desligar o microfone para contar o que era a tal promoção.

Primeiro, pediu uma salva de palmas para todos os clientes do mercado, por serem os que menos “degustavam”(=roubavam comida) no estado do Rio! O pior é que as pessoas aplaudiram! Depois fez todos o seguirem para onde estavam televisores que seriam vendidos por um preço bem especial.

Nós paramos para assistir à agonia das pessoas para pegar as senhas, que eram limitadas, para conseguir os aparelhos de TV que estavam fora do catálogo, ou seja, encalhados na loja e que nunca teriam conserto. Teve gente rasgando a caixa pra não deixar outro pegar. Meu marido conseguiu alertar uma família da roubada.

Nem sempre somos os espertos …

O Vazio

Tirei o trecho a seguir de um artigo da filósofa Márcia Tiburi, da Revista Cult, disponível na íntegra aqui.

“Podemos caracterizar nossa época a partir de três grandes vazios:

1 – O primeiro deles é o vazio do pensamento, tal como o denominou Hannah Arendt. A característica desse vazio é a ausência de reflexão, em palavras simples, de questionamento. Como é impossível viver sem pensamento, o uso de ideias prontas se torna a cada dia mais necessário e vemos ideias se transformarem em mercadorias para facilitar a circulação. Não são apenas as ideias que viram mercadorias. As mercadorias também vem substituir ideias. (…)

Com isso quero dizer que o mundo da aparência substituiu o da essência e isso atingiu até mesmo o pensamento. A inteligência se tornou algo da ordem da aparência, uma moda. (…)

2 – O segundo vazio parece ainda mais profundo, até porque, tradicionalmente tem relação com o território do que chamamos de sensibilidade que está revestido de mistérios. Nesse campo, entra em jogo o vazio da emoção. A impressão de que vivemos em uma sociedade anestesiada, na qual as pessoas são incapazes de sentir emoções, não é nova. Alguns já falaram em culto da emoção, em sociedade excitada, em sociedade fissurada. Buscamos de modo ensandecido uma emoção qualquer. Pagamos caro. (…) A emoção virou mercadoria e o que não emociona não vale a pena. Alegrias suaves e tristezas leves não interessam. Tudo tem que ser extasiante. (…). A questão que está em jogo é a do esvaziamento afetivo. Se usarmos um clichê, diremos que nos tornamos cada vez mais frios, cada vez mais robotizados (…).

3 – Por fim, podemos falar de um vazio da ação. O esvaziamento da política não foi construído de uma hora para outra. (…) Arrancaram a política das entranhas existenciais do ser humano por meio do exercício do pensamento reflexivo que dependia da linguagem e do afeto. No lugar, é posto o “chip fascista” que permite repetir a prepotência e a maldade. Esse chip faz o maior sucesso. Ele ajuda a deixar de pensar no outro, na morte, na dor de viver, na complexidade da vida urbana, na falta de ética. Ele garante o vazio da ação, por meio do qual o povo – que somos todos nós – não deve se permitir ser político, não deve pensar, nem sentir politicamente, não deve participar. Em uma palavra, não deve agir. (…)”

Mais Reflexão, Mais Amor e Mais Ação!

Boa Semana!

*O desenho do lobo uivando foi tirado do livro “Alguns medos e seus segredos”, de Ana Maria Machado. A ilustração, alterada pelo aplicativo Prisma, é de Alcy Linares.

 

Brincadeira Profana e Feliz

crianças brincando

Atualmente estou lendo vários livros ao mesmo tempo. Em um livro sobre Cinema e Educação, por acaso, encontrei algumas reflexões interessantes sobre brinquedo que achei que valeria a pena compartilhar aqui no blog.

Brinquedo – Objeto de Culto

“Muitos dos brinquedos mais antigos, tais como bola, arco, roda de pena, pipa entre outros, foram impostos às crianças como objetos de culto, os quais só mais tarde e graças à força da imaginação infantil transformaram-se em brinquedos”.

“Foram as crianças in-fantes (sem fala) ainda, que, sacudindo objetos de culto, inventaram o chocalho, por exemplo”.

A brincadeira , portanto, profanou objetos que seriam sagrados.

Pipa

Brinquedo – Objeto de Consumo

“Através do sofisticado bombardeio imagético – eficazmente orientado por especialistas -, é que a criança aprende que necessita consumir todos esses brinquedos- que hoje ocupam o lugar do brincar”.

Profanar o sagrado do consumo equivale a brincar e brincar significa sempre libertação“.

Ocorre que “brincar simplesmente não garante a profanação do sagrado da cultura do consumo”.

Além de permitirmos o espaço da brincadeira, precisamos rever o que aprendemos desde pequenos, assistindo a televisão, para que as crianças não repitam o mesmo padrão: que para ser feliz é preciso ser famoso e ter sucesso.

casa de bonecas

O livro de onde tirei as citações foi Cinema e educação: Reflexões e experiências com professores e estudantes de educação básica, dentro e fora da escola, de Adriana Fresquet – professora da Faculdade de Educação da UFRJ e coordenadora da Rede Latino- Americana de Educação, Cinema e Audiovisual (Rede Kino).

Os desenhos são do meu almanaque favorito desde 1987: The Second Kids World Almanac of Records and Facts, de Margo McLoone-Basta e Alice Siegel