Longe da árvore

chão do beijo de klimt

Andrew Solomon é um escritor norte-americano que trata de forma profunda e natural uma diversidade de temas nos seus livros.

Além de escritor, ele é jornalista, ativista do movimento LGBT, do tratamento de doenças mentais e das artes, como descreve na sua página.

Os dois livros que eu tenho dele são “O demônio do meio dia” e “Longe da árvore: pais, filhos e a busca da identidade“.

O primeiro é uma enciclopédia sobre a depressão (os sintomas, a aceitação social, os medicamentos, as terapias para o corpo, a mente e a alma, juntas e separadas, e toda a saga do escritor para conviver com a doença). Depois desse livro, os outros que tratam do tema ficaram parecendo cartilha do posto de saúde.

Comprei “O demônio do meio dia” porque queria entender e tentar ajudar pessoas amadas que viviam e vivem um pesadelo quando o tal demônio ataca. Está emprestado.

longe da árvore

O segundo livro, “Longe da Árvore”, também traz as vivências do autor, disléxico e homossexual e de outras minorias tratadas em casa e na rua como deficientes, gênios ou desajustados.

Solomon entrevistou mais de 300 famílias ao longo de uma década  e escreveu sobre anões, surdos, autistas, prodígios, esquizofrênicos, transgêneros entre outros seres humanos diferentes do padrão comum à maioria da sociedade, partindo da forma como suas famílias os receberam no mundo e o impacto dessa relação nos filhos e nos pais.

Uma frase do autor, parodiando Tolstói, que está na orelha do livro resume sua essência:

“As famílias infelizes que rejeitam seus filhos diferentes têm muito em comum, ao passo que as felizes que se esforçam para aceita-los são felizes de várias maneiras”.

São 820 páginas, além das notas de referências. Dá pra ler os capítulos em sequência ou escolhendo sua própria ordem de interesse.

No primeiro capítulo, ele classifica as identidades entre pais e filhos em dois grupos:

  • Identidades verticais: cor da pele, linguagem, religião entre outros traços transmitidos pelas cadeias de DNA ou pelas normas culturais compartilhadas
  • Identidades horizontais: genes recessivos, mutações aleatórias, valores ou preferências que a criança não compartilha com seus genitores.

Segundo o autor:

“As identidades verticais em geral são respeitadas como identidade; as horizontais são muitas vezes tratadas como defeitos”.

meio do beijo de Klimt

Selecionei alguns trechos do primeiro capítulo sobre o conceito de deficiência, saúde e identidade horizontal:

“Ser gay era uma deficiência no século XIX de um modo que não é agora; hoje, é uma deficiência em alguns lugares de uma forma que não é em outros; e, para mim, era uma deficiência na juventude e não o é mais hoje”.

A anorexia, que ele cita como exemplo de doença mental que tem a maior taxa de mortalidade entre esse tipo de doenças, não pode ser estilo de vida defendido pela via da identidade.

“Está claro que identidade é um conceito finito. O que não está claro é a localização dos seus limites“.

O autor narra que sua mãe o ajudou a superar várias dificuldades trazidas pela dislexia, tanto que ele se tornou um jornalista e escritor. Nesse sentido ele traça a linha subjetiva entre doença e identidade na sua vida.

“Em minha própria vida, a dislexia é uma doença, enquanto ser gay é uma identidade. Pergunto-me, porém, se teria sido o contrário caso meus pais não tivessem conseguido me ajudar a compensar a dislexia, mas tivessem alcançado o objetivo de alterar minha sexualidade”.

Sobre o que os filhos escutam quando os pais rezam por uma cura, quando gostariam que aceitassem suas identidades:

“Jim Sinclair, uma pessoa autista intersexual, escreveu: Quando os pais dizem “Eu gostaria que meu filho não tivesse autismo”o que eles realmente estão dizendo é “Gostaríamos que o filho autista que temos não existisse e tivéssemos em vez dele um filho diferente (não autista)”. Leiam isso de novo. Isso é o que ouvimos quando vocês lamentam por nossa existência. Quando vocês rezam por uma cura.”

o beijo de klimt

Sobre o amor e o sofrimento dos pais:

“Os homens e mulheres que acreditam que ter um filho deficiente lhes deu um conhecimento ou esperança que não teriam de outro modo encontram valor em suas vidas, e aqueles pais que não veem essas possibilidades muitas vezes não o encontram.

Aqueles que acreditam que seu sofrimento foi valioso amam com mais facilidade do que aqueles que não veem sentido em sua dor.

Sofrimento não implica necessariamente amor, mas amor implica sofrimento, e o que muda com esses filhos e suas situações extraordinárias é a forma do sofrimento – e, em consequência, a forma do amor, forçado a assumir uma feição mais difícil.”

Esses trechos estão todos no primeiro capítulo.

O livro é tão amplo e profundo que eu precisaria de vários posts para tratar de cada capítulo separadamente e essa talvez seja uma boa ideia.

Assim sendo, gostaria que esse post fosse apenas um aperitivo para os próximos capítulos de “Longe da Árvore”.

Até o próximo!