Cama de Gato

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Barbante é um material leve e barato, bem apropriado para brincadeiras de bolso.

A origem do barbante na nossa língua teve início no século XVI, muito tempo depois da popularização desse material na Europa.

A palavra barbante vem de Brabante, que era um ducado entre a Holanda e a Bélgica, onde se produzia o fio.

O barbante desde então é a matéria prima da brincadeira cama de gato, que é ainda mais antiga do que o próprio barbante. Gregos e romanos já se divertiam com ela, usando outros materiais.

Pelo mundo afora se brinca de cama de gato.

  • Na língua inglesa, chama-se Cat’s Cradle (berço de gato)
  • Em alemão, é conhecida por Hexenspiel (brincadeira da bruxa)
  • No idioma espanhol é Juego del Cordel (jogo da corda) ou Cuna de Gato
  • Na Roma Antiga era Hamaca…

Para lembrar como se brinca, siga esses passos com atenção e paciência.

Existem brincadeiras com o barbante na mesma linha da cama de gato. Algumas são feitas com histórias ou lendas locais e fazem parte da riqueza cultural de vários povos.

Na Ilha de Páscoa, por exemplo, os “kai kai” usam desenhos feitos pelas linhas do barbante para contar a história da ilha, a chegada dos seus primeiros habitantes, a formação de seus vulcões e o dia a dia do povo, de uma forma lúdica, que é levada a sério.

Ciente da importância dessa brincadeira com cordas,  em 1978, o matemático japonês Hiroshi Noguchi e o missionário inglês Philip Noble se juntaram e criaram a International String Figure Association – ISFA (Associação Internacional de Formas em Cordas) com o objetivo de preservar a cultura dos jogos e das histórias contadas pelas mãos e pelo barbante para as futuras gerações.

No site da ISFA tem histórias, pesquisas, vídeos, dicas de livros e tudo mais que se refere a jogos com barbante. Vale à pena visitar.

A cama de gato, que muitos conhecem na infância, já viajou no tempo e no espaço e deve continuar divertindo e ensinando as próximas gerações.

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Coleção Pequeno Vampiro

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No quarto ano (antiga terceira série do primário) o Vico chegou em casa com um livro que também me acompanhou quando eu tinha a idade dele: O Pequeno Vampiro.

Eu tive quase todos os volumes da coleção, de Angela Sommer-Bodenburg, publicada pela Martins Fontes.

Quem sugeriu o livro para o Vico foi uma colega da sala dele. Eu fiquei super feliz com o incentivo de colegas para a leitura. De lá pra cá ele continuou seguindo outras dicas de livros dos amigos.

Voltando ao Pequeno Vampiro, o único volume que restou da minha antiga coleção aqui em casa foi o primeiro.

O livro tem humor, suspense e umas pitadinhas de terror.

Anton é o menino que conhece um vampiro criança, chamado Rudiger.

Eles compartilham seus medos, suas curiosidades e as queixas sobre os pais.

Os pais de Anton sempre saíam para ir ao cinema ou ao teatro e o deixavam sozinho, até o dia em que ele conhece Rudiger e passa a viver situações inusitadas com o amigo imortal.

Os vampiros adultos também estavam sempre dormindo no caixão ou voando, mas Rudiger tinha, ao menos, a companhia do irmão adolescente, Lumpi, e da irmã caçula, Ana, que ainda era banguela e bebia leite.

O pequeno vampiro protege Anton da fome de seus parentes, como a terrível tia Dorotéia e o ensina a driblar as desconfianças dos outros humanos e a aproveitar a infância com brincadeiras e histórias vampirescas, mas nem percebe que sua irmãzinha, apaixonada por Anton, planeja transformar o amigo em um vampiro.

Essa é mais uma coleção de livros infantis, aprovada pelo Vico e por mim, que faz gostar de ler.

Curiosamente o nome do pai do pequeno vampiro é Ludovico!

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A bolsa amarela

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“Tempo, tempo mano velho falta um tanto ainda eu sei

Pra você correr macio…”

(Sobre o tempo, Pato Fu)

A personagem Raquel, do livro “A bolsa amarela”é uma menina que deseja que o tempo passe para que ela tenha logo os mesmos direitos dos adultos: Ser ouvida e ter privacidade, entre outras “regalias” dos mais velhos.

Além de comandar o tempo, a menina quer poder ser menino para ter a mesma liberdade que só os homens, na sociedade machista em que ela vive, têm.

Diante das limitações dentro e fora de casa, a criança encontra pela criatividade e pelo prazer de escrever um espaço onde existem amigos secretos e aventuras.

Estes amigos, que estão sempre com ela, ficam escondidos dentro da sua bolsa amarela, onde também são guardados os desejos mais profundos da pequena escritora.

A premiada autora Lygia Bojunga, que foi traduzida em várias línguas, nos torna crianças confidentes da menina diante das injustiças e incoerências do mundo adulto.

Li esse livro pela primeira vez há algumas décadas e ele voltou a me surpreender.

Apesar de vivermos em uma sociedade menos machista do que a da época em que o livro foi publicado, 1976, e das reviravoltas na educação dos filhos, “A bolsa amarela” continua atual.

Os sentimentos da criança em relação ao mundo que não cabe na sua bolsa e os desejos de poder decidir sobre o que mais valoriza na sua vida são atemporais.

Este livro, clássico da literatura infantojuvenil, é, portanto, uma indicação da “mãe que lê” e também da biblioteca “gostar de ler” do Ludo e do Vico.

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Criatividade até o fim do livro

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Para abrir a última parte da resenha de “Ser Criativo – o poder da improvisação na vida e na arte”, escolhi um trecho que me comoveu. Nele, Albert Einstein, do alto da sua genialidade, fala da retomada dos questionamentos da infância:

“Um adulto normal nunca ocupa sua cabeça com problemas como tempo e espaço. Na sua opinião tudo o que havia a aprender sobre esse assunto foi aprendido na infância”. Dizia o grande cientista: “Eu, ao contrário, me desenvolvi tão lentamente que só comecei a me questionar sobre tempo e espaço quando já era adulto”.

Depois da infância, segundo o livro, entre outras, duas forças se destacam na luta contra a criatividade. Essas forças são a crítica e o medo.

Ao explicar o “fantasma da crítica”, Stephen Nachmanovitch divide a crítica segundo o tempo da criação:

  • A crítica construtiva ocorre paralelamente ao tempo da criação, como um feedback contínuo.
  • A crítica obstrutiva atua antes (bloqueio) ou depois (rejeição ou indiferença) da criação.

Na crítica construtiva, “os dois parceiros, musa e revisor, estão sempre em sincronia, como um par de bailarinos que se conhecem há muito tempo”.

Antes de chegar nos frutos da criatividade, outra listinha do autor que me chamou a atenção foi a dos medos que tolhem a criatividade.

Os budistas assim definem esses 5 medos que impedem a nossa liberdade:

  • Medo de perder a vida
  • Medo de perder os meios de subsistência
  • Medo de perder a reputação
  • Medo dos estados alterados de consciência
  • Medo de falar em público (que é o mesmo medo de dizer o que se pensa, o medo da exposição e o bloqueio da escrita, por exemplo).

Finalmente, ao chegar nos frutos da criatividade,  encerro a leitura deste livro em um parágrafo que sintetiza suas ideias principais:

“A criatividade sempre envolve uma certa dose de disciplina, autocontrole e sacrifício. Planejamento e espontaneidade se tornam uma coisa só. Razão e intuição passam a ser duas faces da mesma moeda”.

Espero, sinceramente, que os melhores momentos que selecionei da leitura de “Ser Criativo – o poder da improvisação na vida e na arte”, também tenham sido proveitosos para quem me acompanhou até aqui.

Obrigada!

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Guia para a Puberdade

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O livro “O que está acontecendo comigo?” é um clássico que continua conquistando as novas gerações.

Eu li na casa de uma amiga quando tinha 11 anos e nunca esqueci as ilustrações engraçadas, de Arthur Robin, que me ajudaram a entender as transformações no meu corpo.

Meu marido, que também leu esse guia no início da puberdade, fez questão de presentear os meninos. O Ludo leu quando fez 12 anos e o Vico já andou folheando.

O autor, Peter Mayle, foi traduzido para o português pela maravilhosa Ruth Rocha.

Ele explica, entre outras questões, que as pessoas recebem a puberdade em ritmos diferentes.

No início do livro, as meninas e os meninos se reconhecem nas diversas fases das mudanças corporais descritas e desenhadas. Em seguida, mergulham nas questões mais embaraçosas que passam pelas jovens mentes.

Alguns dos tópicos que o livro aborda de forma didática, divertida e sensível são:

  • A vergonha inicial dos “dois montinhos”que aparecem no corpo das meninas onde antes só havia “peito chato”
  • A importância da menstruação
  • O que é ereção
  • Porque temos espinhas
  • O que é masturbação
  • Porque, durante alguns meses, o menino tem duas vozes, uma fina e outra grossa
  • O que é polução noturna
  • Porque nascem pelos em nosso corpo nessa fase da vida
  • Como deverá ser a combinação de amor e sexo após a puberdade

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Esse livro continua sendo um ótimo recurso para meninos e meninas esclarecerem suas dúvidas, se conhecerem e aprenderem a amar e respeitar seus próprios corpos e dos futuros amores.

Ser criativo na prática e com limites

 

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Como funciona a criatividade depois da infância?

Todos nós já observamos como a criança pequena se absorve inteiramente na brincadeira e incorpora elementos da natureza e o que mais estiver ao seu alcance como um “bricoleur”.

“Bricolage” (bricolagem) é uma palavra francesa que significa criar alguma coisa a partir do material que se tem.

Stephen Nachmanovitch, autor de “Ser Criativo – O poder da improvisação na vida e na arte”, destaca a importância da prática e dos limites para a criatividade.

Ele exalta o “bricoleur” como o artista dos limites, o herói que salva o mundo usando poucos materiais e sua própria sagacidade.

Ao contrário do que pode parecer, ele não culpa os limites, e sim os reverencia!

“Às vezes amaldiçoamos os limites, mas sem eles a arte não é possível. Eles nos proporcionam algo com que trabalhar e contra o que trabalhar.”

Além dos limites materiais, outros limites para a criatividade lembrados pelo autor são:

  • As leis físicas do som, da cor, da gravidade e do movimento
  • As convenções sociais
  • O próprio corpo
  • O ego
  • O compromisso pessoal e voluntário com um conjunto de regras…

Voltando à infância, ele ressalta a importância da prática lúdica e vivenciada intensamente.

“O divertimento, a criatividade, a arte, a espontaneidade, todas essas experiências contêm em si suas próprias recompensas, e são bloqueadas quando o desempenho é motivado pela possibilidade de recompensa ou punição, de lucro ou perda.”

O autor reformula o senso comum segundo o qual “a prática leva à perfeição”, que é entendido no ocidente como praticar para adquirir técnica, separando a prática da coisa de verdade.

Achamos que praticar é suportar uma luta penosa em troca de recompensas futuras.

Em partes do mundo oriental, mencionadas no livro, praticar é criar a pessoa.

“A prática revela ou torna real a pessoa que já existe.”

“Não se trata da prática para um fim, mas da prática que é um fim em si mesma.”

A prática que recebe os insights da criatividade consiste em uma experimentação compulsiva, mas prazerosa e envolta em uma sensação de deslumbramento.

Parei por aqui porque o post não pretende ser um resumo minucioso do livro, mas uma compilação das ideias que mais me mobilizaram até agora.

Obrigada por me acompanharem na leitura.

Até a próxima e última parte deste livro que eu estou adorando!

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Ser criativo até o fim da infância

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O livro “Ser Criativo – O poder da improvisação na vida e na arte”, do violinista, compositor, poeta, professor e designer gráfico Stephen Nachmanovitch é para todos.

Não é preciso ser artista para aproveitar a leitura e “a compreensão, a alegria, a responsabilidade e a paz que nascem do uso total da imaginação humana”.

O autor trata deste tema, difícil e almejado por pessoas de todas as artes e ofícios, de uma forma simples e profunda, usando citações, casos engraçados e metáforas.

Seguem algumas anotações que eu fui fazendo nas páginas do livro:

Pré-requisitos da criação:

  • Amor
  • Concentração
  • Prática
  • Técnica
  • Uso do Poder dos Limites
  • Uso do Poder dos Erros
  • Risco
  • Entrega
  • Paciência
  • Coragem
  • Confiança

O que mais me sensibilizou nas páginas iniciais foi a relação entre brincadeira, improviso e evolução.

Os antropólogos descobriram que um dos talentos primitivos das formas de vida mais evoluídas é o “galumphing”.

O que é galumphing? É o termo inventado por Lewis Carrol, autor do clássico “Alice no país das maravilhas”, entre outras obras, para traduzir o jeito de andar desajeitado, que consiste em um galopar triunfante. Este termo aparece no poema Jabberwocky (Jaguadarte, em português), em “Alice através do espelho”.

Nós “galumphamos” quando criamos obstáculos pelo caminho só para desfrutar o prazer de vencê-los e, assim, seguimos experimentando combinações e permutas com o corpo, com as palavras, com os sons e as demais maravilhas do mundo, ampliando pensamentos e sensações que não seriam possíveis se fôssemos regidos apenas pelos valores imediatos da sobrevivência.

Como este livro merece ser saboreado em vez de engolido, dividi sua resenha em 3 partes.

Pelo índice, encontrarei nas próximas páginas, “o fim da infância” como um dos obstáculos do ser criativo; o que já era de se imaginar…

Espero ter a sua companhia nessa leitura até “os frutos da criatividade”.

alice